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TRANSFORMAÇÕES
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"Alguns se vestem de mulher, outros de soldado. Eu sou tigre o tempo todo e amo isso" disse ele ao jornal inglês Daily Record, que publicou a história. Mas o que leva alguém a se comportar desta forma aberrante? Por que tantas pessoas se submetem a estes processos de transformação física de gosto duvidoso? Transformações similares, porém numa escala muito menor, são as das pessoas que se submetem diariamente a tratamentos estéticos, cirurgias plásticas, implante de próteses e torturas similares. Estes procedimentos nem sempre não são nem inócuos nem pouco dolorosos, mesmo assim, muita gente nem pestaneja antes de gastar fortunas neste ritual de metamorfose. Há também hormônios, exercícios físicos, perfurações para inserção de jóias corporais (piercings), tatuagens, implantes de cabelo, cauterização de pêlos, química de ponta aplicada à estética e tantas outras técnicas atuais para transformações da aparência. Como se explica este fenômeno? Desde
a antiguidade o Ser Humano sempre interferiu, de forma maior ou menor,
sobre sua própria aparência corporal. Estas alterações
de forma variam desde roupas e ornamentos dos mais variados estilos, até
verdadeiras mutilações com diversos propósitos. Um
exemplo impressionante é a tribo dos "homens-avestruz"
na África Central, onde os três dedos centrais dos pés
são amputados juntamente com parte dos metatarsos, para que os
pés adquiram a aparência dos das aves. Antropólogos
chegaram a imaginar que se tratava de uma mutação genética,
até que descobrissem que era um procedimento estético feito
ao nascimento. Os índios "botocudos" brasileiros abrem
um orifício no lábio inferior e o alargam progressivamente
com discos de madeira até ostentarem com orgulho lábios
que chegam a alcançar dez centímetros de diâmetro
ou mais. Reis e rainhas egípcios chegavam a ter atrofias musculares
graves, comprovadas hoje em dia pelo estudo de múmias da época,
por não fazerem exercícios ou esforços físicos
e por prezarem a aparência lânguida e esguia. Outro exemplo
bem mais próximo e comum, é a tradição da
circuncisão entre judeus e muçulmanos, onde o prepúcio
do pênis é retirado de forma ritual para expor a glande.
A brutal circuncisão feminina foi e ainda é praticada em
certas regiões da África e do Oriente Médio, onde
se extirpa o clitóris ou, por vezes, também os grandes e
pequenos lábios da genitália externa feminina. No Japão
medieval as mulheres desde crianças usavam sapatos de metal que
impediam o crescimento dos pés, causando deformações
com o intuito de manter os pés pequenos, característica
estética muito apreciada naquela sociedade. Na Itália renascentista
a castração (retirada de testículos) de meninos cantores,
conhecidos como "castrati", era feita com freqüência,
para que suas vozes claras e belas não fossem alteradas durante
a puberdade. A história de um destes meninos cantores pode ser
vista no filme "Farinelli". Tudo isto sem falar no milenar costume
de se fazer a emasculação dos genitais masculinos de meninos
(retirada completa de pênis, testículos e escroto) para se
conseguirem os famosos eunucos que eram milhares na China, Índia,
Oriente Médio e mesmo na Roma Antiga. Se pensarmos bem, o costume
ocidental muitíssimo comum de mulheres usarem saltos altos nos
sapatos (por vezes altíssimos), causando verdadeiras deformações
na coluna, encurtamento de tendões e problemas ortopédicos,
bem que poderia figurar aqui nesta lista, não?
Um
caso a se pensar detalhadamente é o fenômeno de transformação
do famoso cantor norte-americano Michael Jackson. Timidamente ele iniciou
seu processo com pequenas correções estéticas por
cirurgia plástica, até que anunciou que faria uma série
de intervenções estéticas para ter o rosto da cantora
Diana Ross. Suas irmãs Latoya Jackson e Janet Jackson seguiram
seu exemplo. Mais alguns anos se passaram e com eles vieram inúmeras
outras cirurgias para corrigir problemas oriundos das primeiras, resultando
numa total transformação das feições originais
de Michael, que atualmente possui um rosto muitíssimo mais caucasiano,
sem os traços "afro" que seriam característicos
de seu grupo étnico. Finalmente, resultado de um tratamento para
vitiligo (doença que cursa com despigmentação da
pele), o cantor passou a ter uma tez extremamente branca, "descolorida"
pelo uso de remédios. Quem observa uma foto dele quando criança
e a compara com uma sua atual, dificilmente poderia supor de que se trata
da mesma pessoa. Aqui mesmo no Brasil, a atriz Vera Fischer se submeteu
a inúmeras cirurgias, implantações de próteses
e procedimentos estéticos, praticamente "renascendo"
de uma hora para outra, com décadas a menos na idade e muitos centímetros
a mais nas curvas. Legiões de jovens rapazes em todo o mundo A sociedade, seja ela qual for, não importa em que época ou em que lugar, sempre elegeu padrões estéticos estritos, que variam drasticamente de uma cultura para outra. O "status" social é dado por tais padrões estéticos. Como a aceitação pelo meio social é uma questão fundamental, até mesmo de sobrevivência para o Ser Humano, uma pessoa é capaz de qualquer coisa para adquirir estes padrões impostos pela sociedade. Alguém que está de acordo com estes ditames estéticos será aceito pelo grupo e terá sua auto-estima reforçada. Esta é a psicologia da "beleza". O fenômeno do "homem-tigre" apenas chama a nossa atenção por se tratar de uma pessoa que busca padrões conflitantes com os da estética vigente. A idéia aqui é a da individualização. O raciocínio é o seguinte: "eu necessito me diferenciar do meio em que estou inserido, para poder ter uma idéia de que existo, de que sou especial ou de alguma forma importante". O pior é que isto realmente funciona bem: Dennis de um programador de computadores absolutamente anônimo e comum, passou a ser notícia de jornais em todo o mundo e nós estamos aqui falando dele, não? No caso, a busca é pela "fama", pela "glória" e não pela "beleza". Os gregos antigos diziam houve uma vez em que os deuses precisaram escolher qual dentre todas as deusas era a mais bela. As três candidatas que se apresentaram foram Aphrodite (Vênus), que representa a Paixão e o Amor, Hera (Juno) que representa a Glória e a Fama e Atena (Minerva) que representa o Conhecimento e a Sabedoria. Neste mito, a vencedora do concurso de beleza "miss Olimpo" foi Aphrodite, que passou a ser a deusa da beleza. Mas cada um de nós deve na vida escolher entre estas três deusas, ou três objetivos de vida, se querem. Há os que se sacrificam pela beleza, há os que se sacrificam pela glória, mas eu, particularmente aconselho que se algum sacrifício deve ser feito, que seja pela sabedoria. De toda forma, os gregos antigos também diziam que qualquer virtude humana é mortal, como todos nós somos mortais. Apenas os deuses são eternos. O mais próximo que podemos chegar das virtudes de um deus é através das artes, pois elas, as obras de arte, são eternas e sobrevivem em muito aos seus atores, por vezes esquecidos pela História.
A Idolatria do Corpo
O
"homem moderno" tem a "obrigação" de
ser no mínimo jovem (ou ao menos jovial), alto, forte, másculo,
com aparência mais que saudável e esportiva, potente (sexualmente
e socialmente), bronzeado de sol (como prova de que tem tempo livre e
se dedica ao lazer), bem sucedido (economicamente e socialmente), superficialmente
culto (o excesso de cultura pode soar pedantismo ou arrogância)
e elegante (como prova de seu sucesso econômico e psíquico).
A "mulher moderna" tem a "obrigação"
de ser jovem, ter seios fartos, cintura extremamente fina, absolutamente
nenhum acúmulo de gordura subcutânea, ausência completa
de sinais na pele (tais como rugas, "celulite", acne ou varizes),
lábios carnudos, olhos marcantes e úmidos, musculatura rígida,
sensualidade à flor da pele (sem no entanto escorregar para a sexualidade
franca), habilidades manuais (principalmente no tocante trabalhos domésticos)
e personalidade infantilizada (a docilidade é indispensável!).
Na
Na evolução histórica dos conceitos estéticos nas artes, a busca pela Beleza foi gradativamente sendo substituída pela realidade "nua e crua", onde pululam assimetrias, sensações conflitantes, dissonâncias e aleatoriedade. Este processo chegou a tal ponto que atualmente não mais se tem a noção do que possa vir a ser o "artístico" e muito menos o "belo". O Realismo, o Modernismo, Desconstrutivismo, a Antropofagia, o Surrealismo, a estética "Punk", a estética "Gótica" e tantos outros movimentos, incumbiram-se de destroçar estes conceitos e deram lugar a um grande "nada" que nos coloca em constante cheque. Vivemos a era do "Pós-Tudo", onde tudo já foi feito, tudo já foi tentado e tudo já foi descartado. Mesmo no âmbito da religião e da Espiritualidade, tradicionalmente os últimos redutos inquestionáveis da idéia de "Beleza", ainda que abstrata, todos os paradigmas foram sistematicamente demolidos e o que resta hoje é uma profusão de doutrinas religiosas em constante conflito entre si e que nada mais provocam no Ser Humano do que angústia e tensão. Resumindo: o Ser
Humano
vive uma era sem sonhos, sem parâmetros e sem absolutamente nenhum
referencial inquestionável de Beleza e de Espiritualidade, conceitos
que sempre parecem ter andado lado a lado.
Mas,
quando se fala do uso de fármacos para alcançar um objetivo
estético, por exemplo, não se trata mais de algo assim tão
inofensivo. Esteróides anabolizantes, hormônio do crescimento,
hormônios sexuais (masculinos e femininos) e No ano de 2002 gastou-se muito mais em pesquisas, na fabricação e no uso de drogas e artefatos cosméticos, tais como silicone e toxina botulínica, do que com o câncer ou com a AIDS, por exemplo. O gasto mundial com substâncias e métodos que auxiliem e prolonguem a ereção foi igualmente dispendioso neste ano. Qual o significado disto? Consumismo, puramente consumismo. Em que a Humanidade se beneficia com estes supostos "avanços" da ciência médica? Se formos somar aqui os gastos com moda, com atividades esportivas com fins estéticos e procedimentos corporais variados com este mesmo fim, chegaremos a números tão impressionantes quanto absurdos, quando comparados, por exemplo, aos gastos para solucionar a fome do mundo. Talvez alguém saiba me dizer sobre os gastos com a indústria bélica, com conseqüências muito mais terríveis do que os estéticos. No entanto, tenha sido ele qual for (e suponho que tenha sido igualmente elevado), um absurdo nunca justifica outro. Torno a perguntar: onde é que o consumismo pretende levar a humanidade? Ainda por luxo, encontram-se contradições absolutamente sem nexo no impulso consumista, como por exemplo o paradoxo do incentivo tanto à busca desenfreada pela beleza humana, quanto ao super ingestão de alimentos, na maioria das vezes gordurosos. Sabe-se
que hoje aproximadamente um terço da Humanidade passa fome e vive
em condições de pobreza absoluta. Sabe-se também
que outro terço da Humanidade sofre por problemas gerados pela
obesidade. Talvez (não sei), o terceiro terço restante busque
a estética corporal... Isso jamais poderia deixar de ser considerado
um absurdo por qualquer ser pensante! Qual seria a maneira de corrigir
estes erros? Toda idolatria se cura com a tomada de consciência
do processo e ao se encarar a verdadeira causa que nos levou a ela: a
falta de deuses para serem cultuados. O Ser Humano necessita, como sempre
necessitou e continuará a necessitar, de deuses, de religião
e de formas variadas de simbolizar a Espiritualidade. A partir do momento
em que a Beleza retornar ao seu lugar de origem, ou seja: às artes,
ao Bem e à contemplação da Natureza, a verdadeira
Espiritualidade ressurgirá e conseqüentemente a idolatria
perderá todo seu pseudo-sentido. A resposta é esta, mas
que se consiga atingir este nível de consciência de forma
global é praticamente impossível, se não, muito improvável.
Contra esta tomada de consciência e contra este ressurgimento da
Espiritualidade genuína há as forças sociais estabelecidas
pelo consumismo capitalista ("Marketing") que nos bombardeiam
diariamente com inúmeras mensagens subliminares nos meios de comunicação
("média"), nos paradigmas aceitos pela opinião
da maioria ("doxa"), enfim, pelo modus vivendi da sociedade
ocidental. Algo necessita ser alterado neste modus vivendi para que a
Humanidade consiga superar este impasse.
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