Quando em 1793 Phillipe Pinel quebrou "as cadeias dos alienados" em Bicêtre, França, e libertou os doentes mentais do sub-mundo para onde insistentemente eles haviam sido empurrados pela religião, pela sociedade e pelo preconceito, um grande passo estava sendo dado em direção à criação da Psiquiatria propriamente dita: ramo da ciência médica que tem por objeto a "doença mental". Ora, os "problemas do espírito" foram durante longo tempo considerados - e ainda o são por muitos - como "doenças sobrenaturais", "possessões demoníacas" ou "castigos divinos". Muitas atrocidades foram praticadas ao longo da História em nome destes preconceitos, incluindo aqui os horrores da "Santa Inquisição". Mesmo a própria Psiquiatria, pós-Pinel, do alto suas teorias anatomo-neurológicas, como a lobotomia, por exemplo. Mas está o doente mental hoje em dia livre realmente de tais equívocos? É possível que se diga que a Psiquiatria atual possui efetivamente a visão humanitária e filantrópica introduzida por Pinel? Como anda a Psiquiatria hoje?

Há um grande movimento cultural, no Brasil encabeçado pela Faculdade de Medicina de Santos, no sentido de repetir o ato histórico de Pinel e tornar a libertar o doente mental de suas "cadeias". A idéia é reintegrar o doente mental à sociedade e obrigá-la a perceber este doente mental como parte dela, como um cidadão e como um Ser Humano, enfim. Pois não foi a própria sociedade quem gerou esta doença mental usando alguns indivíduos como "bodes expiatórios" de suas "loucuras" coletivas? Em sociedades indígenas, o conceito de "doença mental" simplesmente não existe e o indivíduo que por nós seria facilmente classificado como "desajustado" e "patológico", é visto por estas sociedades primitivas como um indivíduo "especial", no melhor dos sentidos, muitas vezes possuidor do dom da comunicação com o mundo dos "espíritos" ou dos "deuses". Nestas sociedades, ocorre a perfeita integração entre os ditos "doentes mentais" e a sociedade como um todo, coisa que nós, os "civilizados", ainda não conseguimos atingir. No entanto, isto não é tão simples de ser feito: há ainda muita resistência por parte da família dos próprios doentes em tê-los de volta em casa e da sociedade em geral e das autoridades em aceitá-los como pessoas viáveis.

Grandes "depósitos humanos", como o Sanatório do Juqueri, estão sendo desativados, tendo sido inclusive a situação precária de suas instalações amplamente divulgadas pelos meios de comunicação. Mas esta "reforma" no sistema hospitalar psiquiátrico não pode de modo algum ser irrestrita ou feita de uma forma aleatória: existem manicômios judiciários onde estão doentes mentais que, inclusive sob o ponto de vista legal, colocam efetivamente em risco a sociedade, por serem agressivos e por terem cometido delitos, muitas vezes graves como assassinatos. Não se deve, nem se pode indiscriminadamente arriscar a sociedade como um todo em nome da liberdade. Todos assistiram ao filme "O Silêncio dos Inocentes", não? Há ainda o caso trágico das dependências de psicofármacos (álcool e drogas), onde se impõe o afastamento do meio social, o qual gerou a procura por estas drogas como uma "fuga" aos problemas cotidianos, por vezes insuportáveis e que oferece largamente a substância química da qual o paciente está dependente. Existem também aqueles doentes mentais absolutamente irrecuperáveis e cuja patologia é resistente às mais modernas medicações desenvolvidas pela Psicofarmacologia. Porém, mesmo nestes casos irrecuperáveis, quando há uma certa boa vontade por parte da família e uma certa adaptabilidade, consegue-se evitar a internação prolongada ou de caráter definitivo.

A visão contemporânea mais aceita em Psiquiatria é a de que qualquer internação deva ser evitada ao máximo e restrita para situações realmente incontornáveis. Mesmo quando uma internação psiquiátrica se impõe, o psiquiatra e os familiares devem ter em mente que o período de tempo no hospital há que ser o menor possível, para que não se rompam os vínculos afetivos e sociais do paciente, não o expondo assim ao raciocínio, ainda que inconsciente, de "se livrar do problema" - ou seja: do próprio doente mental - através de uma internação. O atendimento ambulatorial (em consultório) é o ideal para a maioria dos casos e, graças a medicações potentes e eficazes, o psiquiatra consegue controlar os sintomas e manter o doente mental no convívio normal. A abordagem multi-disciplinar, ou seja: conjunta entre um psiquiatra, um psicólogo, um assistente social e um neurologista, é em todos os casos a mais indicada. O auxílio de um terapeuta ocupacional especializado em saúde mental, uma enfermagem igualmente especializada e até mesmo de professores de educação física e terapeutas corporais pode também ser de grande valia. A interação entre estes profissionais deve ser franca, amigável e necessita contar com a retaguarda de médicos especialistas em outras áreas e de demais profissionais da saúde.

Existe infelizmente também o reverso deste preconceito: é muitíssimo comum que as pessoas apresentem uma certa resistência em procurar a ajuda de um psicólogo ou de um psiquiatra, quando na verdade estão necessitando destes profissionais. De maneira geral as pessoas "tapam o sol com a peneira" em relação aos cuidados com a própria saúde mental, por imaginarem que ao procurarem uma ajuda profissional, sejam por si mesmas e pela sociedade, classificadas como "loucas", estigmatizadas e segregadas. Os resultados deste preconceito podem ser desastrosos, pois uma afecção que talvez pudesse ser facilmente contornável em estágios iniciais, passa a se desenvolver sem tratamento a acaba atingindo níveis graves. Outro procedimento muito comum por parte dos pacientes é o de procurar várias outras especialidades médicas antes de finalmente chegar a um psiquiatra, aumentando em muito seu sofrimento pessoal e postergando um tratamento efetivo. Mesmo por parte de colegas médicos há, muitas vezes, este mesmo preconceito e o médico generalista enfrenta reticências antes de encaminhar seu paciente para uma avaliação psiquiátrica. O raciocínio absolutamente equivocado de se procurar um neurologista para tratamento dos "nervos", também é, ainda hoje em dia, lugar comum. Desta forma, quem, na verdade, está sofrendo com a doença do pânico, por exemplo, invariavelmente vai primeiro ao consultório de um cardiologista (ou vários), depois ao de um neurologista (ou vários) e ainda "enrola" um bocado antes de marcar uma consulta com um psiquiatra. Certa vez, tive a oportunidade triste de atender em meu consultório uma paciente que permitiu que uma situação de depressão pós-parto se arrastasse por meses, antes de procurar uma ajuda especializada, mesmo estando ela em um estado grave que colocava em risco tanto sua vida, quanto a de seu filho recém-nascido. Este caso, por incrível que pareça, estava sendo acompanhado por um médico ginecologista-obstetra, por um pediatra e por um clínico geral !

A atuação preventiva é sempre a maneira mais correta de se lidar em qualquer área médica, inclusive, é claro, em Psiquiatria. Pensando-se assim, cuidados com a educação e a formação da personalidade no período da infância são fundamentais. Um adequado questionamento do sistema de valores adotado por um indivíduo ou por uma família, igualmente. A observação dos hábitos e rotinas na vida de um indivíduo conseguem, muitas vezes por si só, evitar maiores problemas no futuro. Isto quer dizer que, apesar das pressões sociais, devem-se manter horários reservados para atividades adequadas de lazer, artísticas, esportivas, sexuais e de descanso. Cultivarem-se contatos sociais agradáveis, preenchidos de afetividade e de troca franca de idéias, onde se pode sentir livre para a expressão de opiniões, é o melhor meio de evitar que situações neuróticas se instalem. Muitos grupos de estudo, "workshops" e encontros artísticos criativos são elaborados especificamente com estes fins, funcionando como uma abordagem preventiva, visando literalmente a saúde mental, e não apenas o tratamento de uma doença já instalada. A atuação social por parte de autoridades e do governo, no sentido de propiciar ao cidadão uma melhor qualidade de vida, encontra-se neste mesmo nível preventivo, economizando, em última análise, muito dinheiro que viria a ser gasto em atendimentos médicos e em hospitais (não só na área de Psiquiatria). Esta última visão nos leva inevitavelmente de volta ao ancestral raciocínio da medicina do centro de Epidauro, na Grécia Antiga, que afirmava que a saúde reside numa mente saudável e num corpo saudável.




Correntes de Psicoterapia

Inicialmente é bom lembrar que existem muitas linhas, tendências, teorias e técnicas em psicoterapia. Todas elas têm a mesma eficácia e conseguem resultados igualmente positivos, usando, no entanto, caminhos totalmente diferentes para obtê-los. Interfere muitíssimo também, a personalidade de cada terapeuta, que, evidentemente, dá uma tônica pessoal no processo psicoterápico. Há também terapeutas que associam duas ou mais abordagens. Na escolha de uma psicoterapia ideal, mais importante que a linha que cada terapeuta usa é o contato pessoal entre o paciente e seu terapeuta. Observar o estilo do consultório é uma boa dica, pois revela muito da personalidade do terapeuta. Sempre é bom ter em mente que uma psicoterapia, não importa em que linha seja, costuma ser um processo intenso e prolongado. Isto quer dizer que deve haver uma fácil empatia com o terapeuta, para que o processo se torne mais agradável e fluido. Estão aptos, pelas leis brasileiras, a oferecer uma psicoterapia adequada profissionais das áreas de Psicologia, Psiquiatria e médicos em geral, bem como assistentes sociais especializados.

Freudiana - Esta é a conhecida "Psicanálise" introduzida pelo famoso psiquiatra austríaco Sigmund Freud. Esta é a linha de psicoterapia mais clássica e conservadora, com direito a divã e tudo o mais. O psicanalista ortodoxo é aquele terapeuta lacônico e monossilábico que interfere o menos possível no discurso do paciente. As sessões tendem a ser muito freqüentes (três, quatro e até mesmo cinco vezes por semana) e todo o processo é demorado e profundo, arrastando-se por décadas. Os pressupostos freudianos são o da existência de um inconsciente eminentemente sexualizado e formado por conteúdos reprimidos, por vezes, desde a mais tenra idade. Atualmente a grande maioria dos psicanalistas está tendendo a suavizar um pouco mais as rígidas regras instituídas por Freud. Eles se dizem então "com tendências psicanalíticas" ou "de fundo psicanalítico" e não mais "psicanalistas". A Psicanálise de grupo também é forma muito comum e bem mais econômica de se fazer este processo, sem que se perca na qualidade. Pelo contrário: acrescenta-se a vivência dinâmica à Psicanálise. É bom lembrar que a Sociedade Psicanalítica de Brasil credencia qualquer pessoa com nível superior completo que tenha feito seu curso de formação e tenha se submetido à análise didática, não apenas psicólogos e médicos.


Kleiniana - Melanie Klein era discípula fiel de Freud, não obstante, acabou por criar sua própria linha de psicanálise, imprimindo um cunho muito mais "feminino" à rígida visão freudiana. Todos seus estudos sobre a psicologia infantil e, mais especificamente, do bebê, revelaram todo um mundo até então desconhecido para os estudiosos de Psicologia. A abordagem de Saúde Mental infantil e a Ludoterapia, são normalmente de embasamento kleiniano. Mas não somente para crianças esta teoria é feita: sua aplicação em adultos é muito útil e eficaz, trabalhando de maneira mais leve os consteúdos inconscientes do paciente. Evidentemente, a busca por conteúdos antigos e ligados à infância, como raízes das neuroses do adulto, é o foco da psicoterapia. As sessões são em freqüência de uma a três vezes por semana, em um processo individual relativamente demorado.


• Lacaniana - O psiquiatra francês Jacques Lacan, também discípulo de Freud, propôs sua Psicanálise, baseando-se na idéia de inconsciente freudiano de um lado e, de outro, na teoria lingüística de Sausur. A aparência da psicanálise lacaniana é a mesma da freudiana, mas, na prática, são feitos jogos de palavras e a idéia do "ato falho" é explorada ao extremo (significado/significante). O grande objetivo de todo o processo psicanalítico, bem como de cada sessão isoladamente é o "corte". Por este "corte" entende-se o desnudar prático da neurose "pega em flagrante", por assim dizer, o que é inevitavelmente embaraçoso para o paciente, que se percebe repetindo "receitas antigas" de comportamento. Esta linha é mais agressiva que a Psicanálise tradicional, mas o processo também é demorado e a freqüência das sessões, alta.


• Junguiana - Esta linha foi criada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, originalmente discípulo de Freud. No entanto, atualmente esta teoria guarda poucas semelhanças com a Psicanálise. Chamada em alemão de "Psicologia Profunda" (Tiefenpsychologie), esta proposta de psicoterapia visa principalmente a transformaçãodo indivíduo, tendo por linha mestra o contato com o Inconsciente Coletivo.Isto quer dizer que os terapeutas junguianos têm a tendência a trabalhar com sonhos, mitos das mais variadas origens, religiões, arte, imaginação ativa e conhecimentos antigos da humanidade como o Tarô, a Astrologia, etc. As sessões costumam ser na freqüência de uma ou duas vezes por semana e o processo também é longo. Segundo o próprio Jung, por ser esta linha psicológica muito requintada e elaborada, ela seria indicada somente para aquelas pessoas mais imaginativas e artísticas, com uma capacidade intelectiva superior. Existem variantes desta teoria que incluem a Calatonia, desenvolvida no Brasil por um dos discípulos de Jung: o psicólogo húngaro Petor Sandor. Na verdade a Calatonia é uma abordagem muito mais corporal do que verbal, mas que mantém os mesmos pressupostos junguianos. Muitos psicoterapeutas junguianos dão preferência às artes em geral e podem propor uma "arte-terapia" ou um processo com caixa de areia chamado "sand play".


• Psicodramática - O Psicodrama foi criado pelo psiquiatra Jacob Levi Moreno, igualmente discípulo de Freud. Tendo ele rompido com o criador da Psicanálise, achou inspiração da função catártica do Teatro Grego, como rito dionisíaco, para promover a catarse e a liberação, imprimindo um caráter dinâmico ao que até então era feito de maneira unicamente verbal e estática. O Psicodrama é feito eminentemente em grupo, onde as vivências, fantasias e complexos dos pacientes sãodramatizados e revividos à exaustão no processo terapêutico. Mesmo sendo a vivência psicodramática grupal o grande objetivo, muitas pessoas não estão aptas a ela de pronto e necessitam de um preparo individual, que podese estender por alguns anos. Ocorretambém de todo um processo ser feito apenas no âmbito individual, sem que necessariamente ocorraa psicoterapia em grupo. As sessões ocorrem uma ou duas vezes por semana em um período de vários anos de processo psicoterápico. Quando o Psicodrama é aplicado a grupos específicos, como empresas, escolas ou mesmo na sociedade em geral, é chamado de "Sociodrama" e pode ser feito em "ato" único (não se diz sessão) ou em um processo definido. Vivências psicodramáticas (somente intrapsíquicas ou efetivamente dramatizadas) podem ser facilmente aplicadas em "workshops" e grupos terapêuticos de crescimento e se tornam instrumento muito útil em diversas áreas, devido ao seu teor prático e facilmente assimilável por qualquer pessoa, de qualquer meio social.


• Reichiana - Teoria psicológica criada pelo psiquiatra alemão Wilhelm Reich. Reich era também discípulo de Freud, mas posteriormente criou sua própria visão, baseada no copo físico como principal instrumento do trabalho terapêutico. A psicoterapia reichiana parece, à primeira vista, mais uma ginástica ou algo assim. Mas não se engane: ela trabalha profundamente e de forma direta conteúdos inconscientes profundos. Na prática serão revistas e exercitadas posturas, respiração e o tônus muscular corporal, visando a liberação das "travas" musculares que impedem a liberdade de movimentos e a livre expressão do psiquismo. O processo é doloroso e cansativo, mas os resultados são rápidos e eficazes. A freqüência das sessões será normalmente de uma a duas vezes por semana, num processo individual que dura alguns anos.

• Bioenergética - Técnica reichiana desenvolvida pelo psiquiatra americano Lowen que trabalha o corpo de forma mais agressiva e incisiva que as técnicas reichianas originais. Lowen propôs exercícios respiratórios e posturais que visam a catarse e a rápida liberação de complexos e neuroses. São possíveis tanto um processo individual contínuo, quanto grupos terapêuticos e "workshops" para crescimento e autoconhecimento.

• Corporal - Sob este nome, encontram-se psicoterapeutas que unem as diversas técnicas corporais da Psicologia (Reich, Bioenergética, Calatonia, etc) às técnicas de abordagem corporal da Fisioterapia e Massoterapia (Do-In, Shiatsu, Massagem Sueca, Acupuntura, Moxabustão, etc.). A eficácia destes métodos reunidos é ótima tanto para questões psíquicas, quanto para questões físicas. As sessões podem ser restritas à crise ou se prolongarem em um processo contínuo. Em crise as sessões são diárias. Fora da crise, costumam ser semanais. A duração do processo varia de acordo com o objetivo instituído e com o problema que está sendo trabalhado. Especificamente em Terapia Corporal, fisioterapeutas, professores de Educação Física e profissionais para-médicos estão habilitados a exercer esta atividade.

• Existencial - O Existencialismo é uma filosofia humanista que teve origem com Kierkgaard e Heidegger no século XIX. No século XX teve continuidade com Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Merlot-Ponty, na França. Da visão filosófica, originou-se a psicoterapia existencial que tem por foco o "aqui e agora" e a vida consciente do paciente. Muitíssimo objetiva e prática, esta linha trabalha as escolhas e opções do indivíduo, ampliando sua visão sobre sua própria vida. Os terapeutas existencialistas podem ser vistos como pessoas agressivas, porque normalmente deixam muito claro o que pensam e sentem, mas isto não é verdade, é apenas a maneira existencial de entender o relacionamento humano: baseado na transparência e na sinceridade para consigo mesmo e para com o outro. A freqüência das sessões e a duração do processo são muitíssimo variáveis, assim como são variáveis os terapeutas existencialistas. Uma dica: nem pense em falar sobre sonhos e devaneios com nenhum deles. O foco é realmente a realidade objetiva e atual da vida.

"O significado do discurso não é simplesmente a mensagem conscientemente enunciada. Todo discurso é dito de uma determinada forma. Ele é regido por um como - que não é dito, que está nas entrelinhas, no 'pathos'... É justamente aqui, no nível do não-articulado, que se encontra o sentido do discurso".
Kierkgaard

Heidegger

Simone de Baeauvoir

Sartre

• Gestáltica - A "Gestalt Terapia" tem origem no Existencialismo. A palavra alemã "Gestalt" significa "forma", "figura", "conformação" e é usada para designar a estrutura psíquica básica de funcionamento do Ser Humano. Poder-se-ia resumir a Gestalt na seguinte idéia: "Eu sou eu, você é você. Eu não estou aqui para satisfazer as suas expectativas, você não está aqui para satisfazer as minhas. Se mesmo assim, nós nos encontrarmos, será maravilhoso. Se não, não há nada a fazer". Esta é uma abordagem bastante prática que visa favorecer o Encontro através de determinados exercícios, experiências e laboratórios. Muitas vezes é feita em grupo: tanto em grupos terapêuticos (grupos de crescimento pessoal autolimitados) como em psicoterapia de grupo (processo psicoterápico grupal). Tende a ser um processo leve, bonito e não tão demorado.

• Antroposófica - Linha alternativa de abordagem psicoterápica com base na filosofia criada pelo pensador austríaco Rudolf Steiner, no final do século XIX. Baseando-se nos estudos esotéricos da Helena Petrowna Blavatski e na teoria filosófica de Goethe, Steiner criou a Antroposofia suas inúmeras aplicações em todas as áreas do conhecimento humano (Medicina, Farmácia, Arquitetura, Engenharia, Dança, etc). A Psicologia Antroposófica foi uma lacuna deixada por Steiner e que passou a ser preenchida na segunda metade do século passado por autores como Rudolf Treichler e seu filho Markus Treichler, porém sem conformar-se ainda como uma teoria completa. Uma das grandes contribuições para o entendimento da Psicologia Humana é o estudo da Biografia. No Brasil, a médica alemã Gudrun Burckhart desenvolveu centros de estudo biográfico, como o Artemísia em São Paulo, onde pessoas se propõem a passar um final de semana ou um semana, revendo em grupo o curso de suas vidas. Como psicoterapia propriamente dita, a Antroposofia ainda conseguiu se definir até o momento. O que se vê é que existe uma tendência forte em unir as idéias antroposóficas à outras linhas pré-existentes, variando muitíssimo de terapeuta para terapeuta. Terapias coadjuvantes ligadas à Antroposofia podem ser muitos úteis, quando associadas a uma psicoterapia: Massagem Rítmica, Eurithmia Curativa e Terapia Artística, por exemplo. A própria medicação antroposófica (homeopática, fitoterápica ou alquímica) facilita muitíssimo o desenrolar do processo psicoterapêutico, seja em que linha for.

• Renascimento - Ainda no âmbito alternativo, a técnica do renascimento está sendo muito empregada hoje em dia, sem que, no entanto haja uma definição precisa de seus limites ou um padronização de sua aplicação, que ainda varia muito de terapeuta para terapeuta. A técnica consiste em exercícios respiratórios, físicos e de meditação que tendem a romper a ligação com a realidade e a reviver os momentos do parto. Este método é tido como extremamente agressivo e (por que não dizer?) perigoso, quando não muito bem orientado. Normalmente faz-se um período intensivo de exercícios, que são aplicados em um final de semana ou alguns dias e depois uma manutenção do processo em sessões semanais. Os resultados, quando positivos, são imediatos e impressionantes.

• Hipnótica - A psicoterapia por Hipnose é ainda muito utilizada hoje em dia. Foi criada na França pela figura controversa do Dr. Mesmer (de onde o termo "Mesmerismo") e aprimorada pelo médico francês Jean-Martin Charcot em meados do século XIX, tendo sido inclusive largamente utilizada por Josef Breuer e pelo próprio Freud. Ainda vista como linha alternativa, o objetivo é a pesquisa por indução de sono hipnótico de fatos bloqueados neuroticamente na memória do paciente e o tratamento de sintomas por sugestão pós-hipnótica. Atualmente há uma tendência generalizada, no entanto, em não induzir o estado hipnótico profundo, mas apenas um estado pré-hipnótico, onde o paciente mantém sua consciência em uma espécie de relaxamento torporoso. Os resultados são muito bons quando a técnica é bem aplicada, principalmente em doenças emocionais graves como pânico, ansiedade, fobias e depressões. Há também a melhora importante dos sintomas de pacientes psicóticos agitados e de deficientes mentais problemáticos, o que não dispensa, evidentemente, o acompanhamento médico psiquiátrico constante. As sessões, após entrevistas preliminares podem ser semanais ou diárias, em épocas de crises e o tratamento se estende enquanto houver necessidade de controle de sintomas. A Hipnose pode ser praticada por terapeutas com formação na área, não necessariamente médicos ou psicólogos.

Ilustrações de Mesmer e de Hipnotismo
Charcot
Breuer

Regressiva - A Terapia Regressiva a Vivências Passadas, também da linha alternativa, baseia-se na indução pré-hipnótica como principal instrumento na pesquisas e tratamento de eventos traumáticos no passado (nesta ou em outras vidas). Extremamente controversa, por basear-se no pressuposto da reencarnação, esta técnica tem se apresentado muito útil no tratamento de doenças emocionais graves como pânico, fobias ou depressões, com excelentes resultados. O processo é delicado e trabalhoso e requer um profissional especializado e extremamente cuidadoso para ser bem sucedido. Por ser considerada uma abordagem agressiva, não é indicada para pessoas com problemas de saúde graves (cardiopatas, hipertensos, pessoas com problemas de coluna, etc.) e para pessoas sem uma ótima estrutura psíquica prévia (qualquer tipo de tendência psicótica, ainda que aquiescente, tendências suicidas, etc.). Após várias sessões preliminares, ocorrem sessões de regressão induzida, seguidas por várias sessões de análise do material obtido, antes que se repita outra regressão e assim por diante, em um processo que dura em média de dez a vinte regressões no total (o que equivale a um ou dois anos de psicoterapia).