PÂNICO GERAL

A doença conhecida como "Síndrome do Pânico" e suas formas correlatas mais brandas, englobadas no conceito de "síndromes ansiosas", estão cada vez mais comuns na população em geral e, em especial, entre os moradores das grandes cidades. Quais os motivos que levaram uma doença que a rigor nem mesmo existia há vinte anos a se tornar uma das causas mais freqüentes que levam um paciente ao consultório de um psiquiatra?

O Pânico (Ansiedade Paroxística) é uma "super crise de ansiedade", normalmente acompanhada de sintomas físicos (taquicardia, sensação de sufocamento, sudorese, dores musculares, formigamento de mão e pés, desmaios, etc) que acontece sem aviso e sem causa aparente, podendo pegar uma pessoa de surpresa em qualquer situação: dirigindo, trabalhando, em casa ou mesmo dormindo. A sensação é de morte iminente, mesmo que a pessoa não esteja exposta a nenhum risco real. O mal estar é tão grande que provoca no indivíduo um medo intenso de que ele possa se repetir, o que leva a mais ansiedade. Inicialmente, a pessoa tenta correlacionar a crise com algum evento e a tendência geral é a de evitá-lo. Por exemplo: se a crise ocorreu no carro, o paciente procura evitar andar de carro. Porém, com o tempo, as crises passam a ocorrer em inúmeras situações diferentes e a pessoa tende a termedo de exercer qualquer atividade, até então corriqueira em sua vida. As limitações impostas pela doença aos pacientes são crescentes e progressivamente mais severas. Aparece aquilo que os médicos chamam de "agorafobia": medo intenso de se ver em ambientes abertos ou mesmo de afastar-se de casa e a "fobofobia": medo de ter medo. Neste ponto, em desespero, os pacientes imaginam que possam estar sofrendo de doenças orgânicas, tais como problemas cardíacos ou alterações hormonais e iniciam uma verdadeira peregrinação de especialista em especialista, passando por uma batelada de exames complexos, até se darem conta de que o problema tem uma causa absolutamente psíquica. É neste ponto que muito comumente a depressão se sobrepõe à ansiedade. Um círculo vicioso se instala e temos então uma pessoa limitada, angustiada, depressiva e que não consegue se ver livre de crises de ansiedade recorrentes. Tudo se passa como se a pessoa estivesse enfrentando uma situação de emergência, de pânico, apesar de misteriosamente estar levando uma vida tranqüila e sem nenhum fator estressante aparente.

O tratamento do Pânico nem sempre é simples e deve ser conduzido por um médico psiquiatra experiente e o uso de qualquer medicação psiquiátrica é controlado. Normalmente faz-se uso, como tratamento de base, de antidepressivos de última geração: os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS). Apesar do nome de "antidepressivos", estes remédios modernos têm uma ação específica e muito boa contra as síndromes ansiosas de maneira geral, mas demoram de quinze a vinte dias para começarem a fazer efeito e devem ser usados por longos períodos, que variam de seis meses a dois anos. Os efeitos colaterais destes medicamentos costumam ser baixos e seu uso é considerado seguro, por não induzirem dependência. No entanto, sempre há aqueles casos, ainda que raros, em que os pacientes se vêem impedidos de continuarem o tratamento por efeitos colaterais graves como náuseas, vômitos ou sonolência exagerada com diminuição da capacidade de concentração. Para estes casos em particular, os psiquiatras acabam apelando para medicações mais antigas e menos potentes contra o Pânico, tais como neurolépticos, benzodiazepínicos ou antidepressivos tricíclicos, que acabam tendo outra gama de feitos indesejáveis ao longo de seu uso. Medicações específicas para os sintomas mais comuns, principalmente no início do tratamento, têm seu uso imposto pela prática em associação aos ISRS, tais como remédios contra a ansiedade (ansiolíticos) ou medicações para induzir o sono (hipnóticos). Todos os hipnóticos e ansiolíticos disponíveis provocam, em maior ou menor grau, tanto dependência, quanto tolerância (necessidade de aumento de progressivo de dosagem) e não podem ser considerados medicações muito seguras, tendo sua venda controlada pelo Ministério da Saúde (receituário tipo "B", azul). O uso de medicações contra os sintomas físicos da ansiedade (beta-bloqueadores) podem ser muito úteis para controlar os sintomas, apesar de não serem propriamente medicações psiquiátricas e não controlarem a sensação subjetiva de ansiedade e angústia.

Em nossa prática clínica temos tido excelentes resultados no tratamento das síndromes ansiosas com medicação homeopática, associada ou não ao tratamento ortodoxo alopático. Pode-se reduzir o uso de medicamentos tanto em doses, quanto no tempo, havendo um controle mais apurado e eficaz das crises de ansiedade paroxística, bem como da depressão associada. Para os pacientes que apresentam efeitos colaterais intoleráveis a Homeopatia apresenta-se como boa alternativa. Medicamentos anteriormente considerados como fitoterápicos, como o Hypericum perforatum ("Erva de São João"), apresentaram resultados tão satisfatórios em estudos conduzidos na Alemanha que atualmente já são produzidos por laboratórios alopáticos de forma rotineira e seu uso está indicado em muitos casos de ansiedade paroxística. Em casos complicados, como no Pânico na vigência de gestação, quando não se pode usar nenhum tipo de medicação (nem alopática, nem homeopática, nem fitoterápica) a acupuntura parece ser a única alternativa restante, associada ou não a procedimentos corporais de relaxamento e massagem. Seja como for, todos concordam que o controle eficaz do Pânico somente pode ser possível a longo prazo com a instituição de um tratamento psicoterápico, onde o paciente terá a chance de localizar os verdadeiros fatores emocionais inconscientes que o levaram à esta infeliz situação, podendo assim, com a ajuda do psicoterapeuta (psicólogo ou psiquiatra) atacar e resolver de vez as causas de sua doença. O problema é que qualquer psicoterapia é tratamento caro e prolongado que, na grande maioria das vezes, não é coberto por nenhum plano de saúde. A rede pública oferece este tipo de tratamento em certos centros especializados, mas ainda está restrito a um número pequeno de pacientes.

Mas o que ocorre com uma pessoa que a leva ao Pânico, afinal? Imaginemos inicialmente a vida de uma pessoa comum há uns, digamos, dois ou três séculos passados: um indivíduo vivia em regiões tranqüilas e isoladas, longe dos grandes centros urbanos e tinha a necessidade diária de conviver com seus familiares em constante troca afetiva de ajuda mútua. Havia também a necessidade de exercício físico constante, como por exemplo para cortar lenha, cuidar de seus animais domésticos e de sua moradia, sem quase nenhuma facilidade tecnológica para auxiliá-lo nestas tarefas. O próprio trabalho rural dos indivíduos, era o fator responsável pela integração do Ser Humano à Natureza. A Espiritualidade, seja de qual origem fosse, era a linha mestra das vidas. O acesso à informação era absolutamente restrito e ineficaz, o que obrigava o indivíduo a ignorar os acontecimentos que não estavam rigorosamente ligados à sua vida pessoal e da pequena comunidade a que pertencia. Nosso sistema emocional foi feito, por assim dizer, para este tipo de vida pacata e rural e não para a vida que temos hoje. Nosso sistema cognitivo consegue dar conta desta informação: entendemos facilmente que houve um terremoto no Japão, um atentado terrorista nos Estados Unidos e um bombardeio no Oriente Médio. Mas o que podemos fazer com a carga emocional que cada uma destas notícias contém? Somemos a isto o stress que a pressão da propaganda nos impõe: temos que ter o tal carro do ano, temos que usar a tal roupa de grife e temos que dar a nossos filhos o tal brinquedo eletrônico e computadorizado que ele viu na TV e raramente nossa renda acompanha os gastos destas "necessidades" criadas pelo Marketing. Para piorar, não conseguimos ter o controle de nossas atividades diárias: normalmente exigem-se de cada um mais tarefas do que seriam possíveis nas vinte e quatro horas de um dia. Nos únicos momentos de relaxamento e descontração, dedicamo-nos a receber mais informações cognitivo-emocionais conflitantes, quando nos expomos a um filme de ação cheio de violência e terror ou simplesmente nos anestesiamos com substâncias entorpecedoras (álcool e drogas). O contato interpessoal, vital para qualquer Ser Humano, tornou-se cada vez mais excepcional e de baixíssima qualidade, permeado por stress e ansiedade. O contato frutífero com o Inconsciente através das atividades criativas, artísticas ou através dos sonhos e das estórias mitológicas e folclóricas, perdeu-se em meio à confusão da modernidade. O exercício físico somente é possível mediante compromissos agendados em academias, que acabam trazendo mais informações desnecessárias e mais exigências impostas pela sociedade de consumo. O Pânico, visto sob este prisma, parece-me uma doença social fadada a acometer um número cada vez maior de pessoas, não?

Cada indivíduo consegue lidar com uma quantidade "X" de stress: cada um de nós tem seu limiar. Ultrapassado este limiar, o cérebro humano está programado, desde a mais remota antiguidade, para detonar sinais de alerta e declarar, à revelia da consciência, que estamos submetidos a uma situação emergencial, em que devemos lançar mão de mecanismos que possam garantir nossa sobrevivência. Este alerta é o pânico. O pânico, palavra grega que significa "aquilo que atinge a todos indistintamente", é o instinto que faz com que a presa fuja do predador, é aquele sentimento que faz com que cada um aja para defender sua própria vida, rebaixando as funções intelectivas superiores. Os centros neuronais responsáveis por este "decreto de pânico", são os chamados núcleos da base e o sistema límbico. Os núcleos da base são estruturas que foram por nós herdadas dos répteis, por isso são também conhecidas como "cérebro reptiliano". A agressividade, os rompantes emocionais e o preparo do organismo como um todo para o choque, são suas "marcas registradas". Este cérebro reptiliano não tem condições de separar o que é fantasia, do que é realidade. Não há como abstrair quais informações realmente dizem respeito à nossa vida e quais não, não há como classificar quais necessidades são imperiosas e quais são apenas apelos sociais. Quando este cérebro reptiliano toma o poder, mesmo quando não ocorre uma situação em que nossa vida esta sob a ameaça de um perigo real, ocorre uma crise paroxística de ansiedade, que é mediada pelo sistema límbico. A "Síndrome do Pânico" é a situação em que nosso cérebro e nosso corpo reagem como se estivéssemos frente a frente com um tigre de dentes de sabre, mesmo quando este tigre seja tão-somente nossa vida cotidiana contemporânea.

Córtex cerebral (pensamento racional consciente), núcleos da base (cérebro reptiliano) e o sistema límbico como mediador de ambos e coordenador das emoções.

A única maneira de revertermos o processo da crescente "epidemia" de Pânico, é a mudança urgente do modo de vida, principalmente o levado pelos habitantes dos grandes centros urbanos. O retorno às atividades artísticas e criativas; a instituição do exercício físico habitual e desvinculado das exigências sociais estéticas e consumistas; o contato pleno com o Inconsciente proporcionado pelos sonhos, pelos mitos e pelo folclore; o contato verdadeiro e afetivo entre os indivíduos e, finalmente, a diminuição do bombardeio diário do excesso de informação, são as saídas conjuntas obrigatórias. A Espiritualidade também impõe-se como fator estabilizador e redutor de pseudo-responsabilidades individuais, re-introduzindo a noção do coletivo e da deidade responsável por esta coletividade, tal qual a Natureza como fator re-equilibrador em seus ciclos eternos. Estes são os verdadeiros desafios a serem superados pela sociedade do Século XXI.


Saiba Mais:

Transtorno de Pânico e Ansiedade:
http://www.saudevidaonline.com.br/artigo15.htm
http://portugues.salutia.com
http://www.miranet.com.br/medicina/psiquiatria.htm
http://valleser.rumo.com.br/pan.htm

ISRS:
http://www.neuropsiconews.org.br/21_npn/21_antidepressivos2.htm

Hypericum:
http://www.hypericum.com/hyp09.htm
http://www.sobrage.org.br/
http://www.drashirleydecampos.com.br/fitoterapia/fitoterapia_hypericum_perforatum.htm
http://www.compuland.com.br/reactiva/page17.htm
http://www.3rivers.net/~tomelpel/weedsinfo/Hypericum_perforatum.htm
http://www.buildfreedom.com/content/books/hypericum/2_1.html
http://www.uol.com.br/bemzen/ultnot/vidanatural/ult493u34.htm

Sistema Límbico:
http://www.epub.org.br/cm/n05/mente/limbic.htm


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