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Na
Antigüidade o Ser Humano não conseguia explicar a Natureza
e os fenômenos naturais (e parece-me que ainda hoje não compreende
nem consegue explicá-los da mesma forma). Então, dava nomes
ao que não podia explicar e passava a considerar os fenômenos
como "deuses". O trovão inspirava um deus, a chuva outro.
O céu era um deus pai e a terra, uma deusa mãe e os demais
seres, seus filhos. Criava, a partir do Inconsciente, histórias
e aventuras que explicavam de forma poética e profunda o mundo
que o rodeava. Estas "histórias divinas" eram passadas
de geração para geração e adquiriam um aspecto
religioso, tornando-se mitos ao assumirem um caráter atemporal
e eterno, por dizerem respeito aos conflitos e anseios de qualquer Ser
Humano de qualquer tempo ou local. Estes núcleos arquitípicos
mitológicos recebem o nome de "mitologemas". A um conjunto
de mitologemas de mesma origem histórica, dá-se o nome de
"mitologia". Aos mitos se uniam ritos que renovavam os chamados
"mistérios". O rito torna ato (atualizam) um mito que
se faz representar (atuar) em seu simbolismo encarnado nos "mistérios".
Ao conjunto de ritos e símbolos que cercam um mitologema dá-se
o nome de "ritual". Ao conjunto de rituais e mitos com origem
histórica comum dá-se o nome de "religião".
À religião sempre se unem preceitos ético-morais
chamados "doutrinas religiosas", compostas por proibições
a ("tabus") e ídolos ('totens"). Assim nasceram
os deuses.
Há
dois principais motivos que fazem da Mitologia grega a mais estudada das
mitologias: sua racionalidade e sua importância histórica
como base da Civilização Ocidental. Diz-se que os gregos
antigos possuíam um "gênio racional", uma mente
lógica por excelência. Esta "mete lógica"adaptou
os mitos pré-existentes às necessidades da razão.
Assim, absurdos foram corrigidos e coerência foi imprimida à
Mitologia. Por exemplo, as religiões persas acreditavam que o Universo
era fruto da guerra do Bem contra o Mal, da guerra dos seres da Luz contra
os seres das Trevas e que a vitória daquela sobre estas dependia
diretamente da execução de determinados rituais. Isso na
prática quer dizer que os persas acreditavam que se sacrifícios
não fossem feitos, haveria o sério risco do Sol não
voltar a nascer pela manhã e de que as Trevas Eternas se abatessem
sobre o planeta. Os gregos jamais se permitiriam aceitar tamanha ilogicidade
e se viram obrigados a criar uma visão de mundo cujas leis fossem
estáveis e confiáveis. Era evidente para o "gênio
racional" grego que o Sol nasce a partir de uma força intrínseca
a ele e ao Universo e não na dependência das ações
humanas. Apareceram então os conceitos de "Ordem do Mundo"
(Kosmos) e de "Natureza" (Physis), que os afastou das "trevas"
da incerteza e da ignorância. O "Chaos" cedeu lugar ao
"Kosmos" e nele reina necessariamente uma natureza lógica,
previsível e estável. Apesar de ainda existirem inúmeras
religiões, inclusive o Judaísmo e o Cristianismo, que se
baseiam nas noções persas de um universo caótico
na dependência dos atos humanos, foi dos conceitos de Kosmos e de
Physis que surgiu a cultura ocidental, a Filosofia e a Ciência.
Com
o passar do tempo, a racionalidade grega foi superando a noção
de religião e tornando-se de sacra em laica. Pela primeira vez
na História apareceu na Grécia Antiga, na região
da Jônia (atual Turquia) um pensamento laico puramente lógico
e desvinculado totalmente da idéia do sagrado. Estes primeiros
filósofos jônicos (pré-socráticos) nada mais
fizeram do que transpor ipsis literi a Mitologia Grega em Filosofia. Mais
tarde Aristóteles em Atenas explicaria a gênese do pensamento
filosófico da mesma maneira como se explica a gênese do pensamento
mitológico: "é através do espanto que os homens
começam a filosofar". Os filósofos sempre tentaram
explicar a Natureza e seus fenômenos, caindo inevitavelmente em
contradições e as de seus companheiros de profissão.
A Filosofia expandiu e acabou englobando áreas para muito além
da descrição da Natureza e seus fenômenos, incluindo
em si o estudo do Ser Humano e todos os fenômenos relacionados a
ele e ao seu pensamento. No entanto, as contradições entre
os filósofos continuariam a afligir o espírito humano por
séculos, quer em relação aos métodos, quer
em relação às teorias, quer em relação
aos fenômenos. A Filosofia incumbiu-se finalmente de "assassinar"
os deuses de onde havia nascido, afirmando que os deuses não passavam
de alegorias místicas para as forças da Natureza que requeriam
uma explicação lógica e jamais religiosa. Se os deuses
existissem, eles seriam, tal qual os mortais, constituídos por
átomos e submetidos às implacáveis e imutáveis
leis naturais.
Existe
uma espécie de preconceito generalizado contra os pensamentos não-científicos,
especialmente contra os métodos filosóficos especulativos
e o pensamento mítico.Porém, o estudo da Mitologia não
pode ser visto com um interesse meramente histórico. A Mitologia
Grega é a base do pensamento ocidental e guarda em si a chave para
o entendimento de nosso mundo, de nossa mente analítica e de nossa
psicologia. Ao se comparar a Mitologia Grega com as demais mitologias
(africanas, indígenas, pré-colombianas, orientais, etc)
descobre-se que
há entre todas elas um denominador comum. Algumas vezes estaremos
frente aos exatos mesmos deuses, apenas com nomes diferentes, sem que
exista nenhuma relação histórica entre eles. Este
material comum a todas as mitologias foi descoberto pelo psiquiatra suíço
Carl Gustav Jung e foi por ele denominado de "Inconsciente Coletivo".
O estudo deste material revela-nos a mente humana e seus meandros multifacetados.
Como foi dito, os mitos são atemporais e eternos e estão
presentes na vida de cada Ser Humano, não importa em que tempo
ou em que local.
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