Um Demônio da Noite
LILITH é uma figura controversa e na maioria das vezes incompreendida. Um ser mitológico que se apresenta como demônio, como criatura da noite, como deusa maligna, mas que guarda consigo a chave para o entendimento completo do mundo feminino. Trata-se, na verdade de um importante arquétipo do Inconsciente Coletivo e que se manifesta em todos nós de infinitas formas. É necessário conhecê-la e compreendê-la para que possamos lidar com suas manifestações.
Lilith é conhecida como um demônio feminino da noite que teve origem na antiga Mesopotâmia. Lilith era associada ao vento e, pensava-se, por isso, que ela era portadora de mal-estares, doenças e mesmo da morte. Porém algumas vezes ela se utilizaria da água como uma espécie de portal para o seu mundo. A imagem de Lilith, sob o nome Lilitu, apareceu primeiramente representando uma categoria de demônios ou espíritos de ventos e tormentas na Suméria por volta de 3000 aC. Muitos estudiosos atribuem a origem do nome fonético Lilith por volta de 700 aC. A palavra “noite” em Hebraico se diz Laylah e guarda relação com o nome Lilith. Talvez dada a sua longa associação à noite, surge sem quaisquer precedentes a denominação screech owl, ou seja, como “coruja”, na famosa tradução inglesa da bíblia, a King James Version. Na Suméria e na Babilônia ela ao mesmo tempo que era cultuada era identificada com os demônios e espíritos malignos. Seu símbolo era a Lua, pois assim como a Lua ela seria uma deusa de fases boas e ruins. Alguns estudiosos a associam a várias deusas da fertilidade, assim como deusas cruéis devido ao sincretismo com outras culturas. Muitos acreditam também que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa suméria da guerra e do prazer sexual. O Relevo Burney (ilustração acima), um relevo sumério, representa Lilith.
A imagem mais conhecida que temos dela é a imagem que nos foi dada pela cultura hebraica. Uma vez que esse povo foi aprisionado e reduzido à servidão na Babilônia, onde Lilith era cultuada, é bem provável que viam Lilith como um símbolo de algo negativo. Vemos assim a transformação de Lilith no modelo hebraico de demônio. Assim surgiram as lendas vampíricas, as lendas de que Lilith tiria 100 filhos por noite, súcubus quando mulheres e íncubus quando homens, ou simplismente lillim. Eles se alimentavam da energia desprendida no ato sexual e de sangue humano. Também podiam manipular os sonhos humanos, seriam os geradores das poluções noturnas. Mas uma vez possuído por um súcubus dificilmente um homem saía com vida. Há certas particularidades interessantes nos ataques de Lilith, como o aberto esmagador sobre o peito, uma vingança por ter sido obrigada a ficar por baixo de Adão, e sua habilidade de cortar o pênis com a vagina segundo os relatos católicos medievais. Ao mesmo tempo que ela representa a liberdade sexual feminina, também representa a castração masculina.
Lilith figura como um demônio da noite nas escrituras hebraicas (Talmud e Midrash). Lilith é também referida na Cabala como a primeira mulher do bíblico Adão, sendo que em uma passagem ela é acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido. No folclore popular hebreu medieval, ela é tida como a primeira esposa de Adão, que o abandonou, partindo do Jardim do Éden por causa de uma disputa, vindo a tornar-se a mãe dos demônios. De acordo com certas interpretações da criação humana em Gênesis, no Antigo Testamento, reconhecendo que havia sido criada por Deus com a mesma matéria prima, Lilith rebelou-se, recusou-se a ficar sempre em baixo durante as suas relações sexuais. Na modernidade, isso levou a popularização da noção de que Lilith foi a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.
Assim dizia Lilith: ‘‘Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’’ Quando reclamou de sua condição a Deus, ele retrucou que essa era a ordem natural, o domínio do homem sobre a mulher, dessa forma abandonou o Éden. Três anjos foram enviados em seu encalço, porém ela se recusou a voltar. Juntou-se aos anjos caídos onde se casou com Samael (Satã) que tentou Eva ao passo que Lilith Tentou a Adão, fazendo-os cometer o adultério. Desde então o homem foi expulso do paraíso e Lilith pretende destruir a humanidade, filhos do adultério de Adão com Eva, pois mesmo abandonando seu marido ela não aceita sua segunda mulher. Ela então perseguiria os homens, principalmente os adúlteros, crianças e recém casados para se vingar.
A Lua Negra
O psicólogo Roberto Sicuteri escreveu o livro “Lilith: A Lua Negra” apresentando-nos o arquétipo da chamada “Mãe Devoradora”, baseando-se no mito de Liltih. Sicuteri parte da idéia do Adam Kadmon, um ser primordial andrógino que foi criado por Deus do barro e do sopro divino. As escrituras dizem: "os criou macho e fêmea". O Senhor não permanece onde macho e fêmea não estão unidos. "Os abençoou e deu a eles o nome de Adão" (do Hebraico “adamah”, terra, donde “Adam”, “ que foi da terra tomado”). Adão então pediu uma companheira porque estava insatisfeito. Afastou-se das práticas sexuais indiferenciadas quando conseguiu reconhecer a mulher. É apenas no Gênesis II que aparece dotado de alma e capaz de reconhecer a necessidade da mulher. No Talmud e no Zohar a androginia também está explícita: o nome Adão foi compreendido como englobando macho e fêmea (Adam Kadmon). “A fêmea estava atada ao lado do macho e Deus mergulhou o macho em um profundo torpor e ele ficou estendido sobre o terreno do Templo. Então Deus separou-a dele e paramentou-a como uma noiva”. No Gênesis, aparece de forma mais implícita: “E Deus criou o homem à sua imagem, na Divina imagem Ele os criou; macho e fêmea os criou”. A mais respeitável obra judaica sobre a interpretação do Gênesis, o Midrash Rabbah, diz textualmente: “quando o Sagrado, Abençoado seja Ele, criou o primeiro homem, Ele o criou andrógino”.
O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística, que se coloca lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica dos sacerdotes. A lenda foi perdida ou removida durante a época de transposição da versão jeovística para a sacerdotal, que logo após sofre as modificações da Igreja. Toda a história psicológica da relação homem/mulher é uma série de notas de rodapé à história de Adão e Eva. Lilith para nós nasce, talvez, do sonho ou da narrativa dos Rabis, de uma necessidade ou de uma fantasia coletiva. Em Gênesis I Deus criou o homem como macho e fêmea e em II a mulher foi formada da costela de Adão, que deveria ser viúvo ou divorciado quando Deus lhe conduziu Eva. Ou talvez tivesse duas mulheres. Lilith tem a ver com Gênesis I. A costela é o símbolo da nova entidade que nasce deles. Assim, o casal já existia antes do "nascimento" de Eva. "Deus criou Lilith, a primeira mulher, assim como havia criado Adão, mas usando fezes e imundície ao invés de pó puro". Então Lilith nasce logo após Adão: répteis, demônios e Lilith foram as últimas criações de Deus no 6o dia. Ao término do dia no qual Deus repousou, Adão já havia consumado sua relação com Lilith. O mito de Lilith representa o arquétipo da relação homem-mulher. Lilith é um mito seguramente anterior ao de Eva. Ela entra no mito já como demônio. Ela é coberta de sangue e saliva, símbolo do desejo. "No momento em que foi criada a mulher foi criado também Satã com ela". O amor de Adão por Lilith foi logo perturbado. Quando se uniam na carne, ela perguntava: "por que devo deitar-me embaixo de ti?" Adão recusou mudar de posição e assim Lilith se afastou dele. Voou em direção às margens do Mar Vermelho, depois de profanar o nome de Deus pai. Lilith se transformou no demônio, rodeada por todas as criaturas perversas saídas das trevas. Os anjos a chamam de volta, ela se rebela e eles a ameaçam de morte. Ela responde: "como poderei morrer, se Deus me encarregou de me ocupar de todos os meninos até o 8o dia, data da circuncisão, e das mulheres até seus 20 anos?" Os anjos voltam ao Éden, mas Jeová Deus já havia decidido punir Lilith, exterminando seus filhos. Lilith, acasalando-se com os diabos, gerava 100 demônios por dia, os quais eram chamados lillim, que significa “multidões”. Lilith seguiu estrangulando as crianças pequenas ou surpreendendo os homens no sono, induzindo-os a mortais abraços.
No fundo, Lilith já fora criada como um demônio, tendo gerado, juntamente com Adão, outros seres iguais a ela, que se vingam contra a humanidade . Essa natureza satânica é, por assim dizer, uma advertência do que a cultura rabínica e patriarcal nos faz com relação àquela que perturbou a noite toda o sono de Adão: Lilith, feita de sangue (menstruação) e saliva (desejo), é expressão de fatalidade. Neste ponto, Lilith é mais fiel ao protótipo da mulher do que a submissa Eva, embora ambas tenham sido veículo do pecado. Só que a recusa ao desejo, ao sonho erótico que subtraiu a porção divina de Adão chega, com Lilith, a extremos surpreendentes após a separação deste casal. O alfabeto Bem Sirá (século VI ou VII) conta que Lilith, inconformada com a situação de desigualdade vivida com Adão, questiona: "Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que ser dominada por você? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual." E Adão, ciente da supremacia do homem, nega-se a mudar a ordem. Lilith revolta-se, pronuncia o nome mágico de Deus, acusa Adão e vai embora. Voa para as margens do Mar Vermelho, onde passa a viver em promiscuidade com os diabos, gerando 100 demônios por dia e lá ela se transforma e assume seu tenebroso destino, seduzindo homens em seu sonho, espalhando a morte, pois foi declarada guerra ao Pai.
Encarnando o feminino negativo, Lilith transfigura-se, posteriormente, em inúmeras deusas lunares (Ishtar, Astarte, Isis, Cibele, Hécate), arquétipos das forças incontroláveis do submundo – a Lua Negra. Até ser personificada pela bruxa, na Idade Média, contra a qual o homem moveu uma das mais sangrentas perseguições de toda a sua história. Mas existem muitas outras histórias sobre Lilith. Dizem que ela significa a outra ou o outro num triângulo amoroso. Para os assírios, era considerada um demônio. No Zohar também é assimilada como a rainha dos demônios que incitava os homens. Na Kabala, pode corresponder à 10º sefirah, Malkuth, que reina no submundo e na escuridão, incapaz de contatar Deus, sempre sujeita a tentações e frustrações.
Lil é uma raiz suméria que aparece na formação do nome de várias divindades e de espíritos maus. Há uma etimologia hebraica que fazia derivar o nome de Lilith de Layl ou Laylah, “noite”. Lilith-Lilitu-Lulu é a variável do demoníaco na área hebraica do oriente médio, expressão da paixão turva da sexualidade desenfreada. Segundo a imaginação humana, tendo fugido do Éden, Lilith conseguiu superar as infernais plagas desérticas desabitadas e é ali que se inicia o reino de todos os Diabos. Lilith se tornou para os semitas uma figura terrífica para as parturientes e crianças, porque as rapta. Em certos textos ela vem descrita como principal demônio feminino. Nos ataques noturnos de Lilith os homens sentiam terrível opressão torácica e impotência. No dia seguinte sentiam peso, depressão, dor de cabeça, choro. À Lilith é atribuída também a qualidade de vampiro. Ela também provoca fenômenos nervosos de origem histérica. Considerava-se que ela provocava doenças. Há uma versão que considera os demônios almas malvadas transformadas por Deus em espíritos malignos. Outra os quer multiplicados em seguida a relações sexuais entre um espírito malvado e o primeiro casal humano. Outra ainda diz que a cada sete anos há uma transformação: hiena macho em morcego, em vampiro, em urtiga, em abrunheira e esta em demônio. Diabos estão sempre próximos à água. O Talmud exorta o cuidado com os líquidos expostos nas casas. Mais tarde Lilith se estruturou como arquétipo e símbolo das proibições colocadas ao desejo sobre as quais vão se agregar influências religiosas de culto e psicológicas, transformando-a em tabu. De um lado, permanece como espírito maligno terrestre evoluindo no símbolo da bruxa e de outro se torna uma divindade astral ligada à Lua, dando assim corpo à imagem da Lua Negra.
Na tradição egípcia e Grego-romana as luas crescente e cheia correspondem à Grande Mãe. A nova é a Lua Negra, a ausente, o demônio da obscuridade. Os demônios femininos, o dragão das trevas, tragam o homem e esterilizam a terra. A história típica de base é a experiência das fases lunares. Com a projeção do tema interno na Lua, Lilith assume um caráter numinoso (potencial, sacro) e religioso, manifestando o lado feroz das divindades femininas. Para os adoradores dos deuses da área pré-cristã bem e mal se fundiam na mesma divindade. Como Lilith fugiu do Éden deixando uma mensagem de rancor e ódio, a deusa Lua foge do céu e se faz negra, vingativa, irritada. Os véus de Ísis são símbolos da fascinação que exercia nas fases, mesmo quando oculta. Na arte decorativa egípcia há a representação de Ísis no símbolo negro da Lua. Às vezes traz a meia-lua negra sobre a testa.

É na psicologia dos gregos que está em grau máximo a potência e o alcance do mito de Lilith. A lua crescente corresponde à virgem do ar; a cheia, à ninfa da terra e a minguante, à velha do mundo. As três constituíam uma pessoa una e trina. A trindade básica se repetia em múltiplos até nove e dessa estrutura derivou o calendário do tempo (ano, meses e semanas). A figura fundamental é Koré (do Grego “koré”: “donzela”) como protótipo da deusa jovem centrada no arquétipo lunar. Koré se torna mãe e filha, mas conserva seus componentes de masculino e feminino juntos. Em sentido absoluto será Perséfone (do Grego “Persephoneia”: “o som da destruição”), filha de Deméter. Vai se identificar totalmente com Kore-Hécate, esposa do deus infernal Hades (Plutão), rainha do Tártaro, guardiã do mundo subterrâneo. Perséfone é a ruptura do equilíbrio, o último quarto da fase lunar. No inferno ela perde a lembrança das flores que tinha nas mãos e conhece as trevas mais profundas, onde reina a morte. Perséfone é a parte que a psique consciente não consegue aceitar. Na Grécia Hécate é a figura mais representativa do mito de Lilith. Ela concentra a carga imaginal mais destrutiva e aterrorizante. Ela não é logo percebida como parte obscura e símbolo do proibido. É a testemunha do rapto inesperado da jovem virgem por Hades. Depois dela vem a feiticeira medieval. A Hécate-Lua Negra é bela, uma Circe homérica. Circe apresenta-se como a possibilidade ideal de satisfação absoluta. Pode conceder o êxtase erótico, mas ao preço da perda da liberdade. Ela é o mistério do não retorno: satisfação e perdição. É a Lilith que se vê e se sente aceita.
A Empusa é o demônio feminino que obedece à senhora negra da noite. Representa o ataque de fantasias e desejos que em vão são censurados. Aparece na esfera imaginal como algo mais vívido e implacável do que Hécate, mais demoníaca e é capaz de fazer explodir terrores mais arcaicos e incontroláveis. Agride de improviso, mas pode ser enxotada. A lenda de Lâmia, deusa governante da Líbia, se entrelaça com a de Empusa: vampirismo que conduz a vítima à morte. A vida imortal com Deus Pai exigiu um preço: o deslocamento do mal sobre Lilith, a transferência da dor e da grande dúvida para a mulher.
As amazonas são sacerdotisas da Lua, guardiãs da vida e da morte. Filhas de Dánao, quando os filhos nasciam, os meninos eram mortos. Obrigadas a casar, as Danaídes matavam os maridos. A sereia é a imagem mais inconsciente e terrível de Lilith, pois reúne todas as características destrutivas. A Perséfone helênica se torna, no culto romano, a temida e tenebrosa Prosérpina, rainha e guia dos infernos. Deméter, deusa lunar da fertilidade, se torna Cibele. Artêmis será a Diana caçadora. Hécate é considerada, com Medéia, a sacerdotisa das bruxas. A Medéia de Eurípedes representa a mulher que vive inteiramente a tensão em relação à própria liberação do jugo patriarcal e das leis impostas pelo homem. Os romanos eram muito supersticiosos. Em Roma a mulher sofreu até a culminante carnificina imposta pela Igreja, a mais devastadora repressão sexual que o homem já realizou.
No Século XII, um espectro surge e vagueia pela Europa: a bruxa. Nunca, como nesta época, a mulher teve que pagar um preço tão trágico pelo ódio masculino à força instintiva. Por toda a Europa ocidental o espectro da bruxa se agitou como uma doença e culminou com a caça às bruxas, a inquisição e as condenações à fogueira. O mitologema da bruxa medieval deve ser relacionado a Hécate e a Artêmis-Diana. A bruxa vive numa dimensão oculta na sociedade dos séculos XIII e XIV. As bruxas eram necessárias como demonstração do pecado e da queda, da existência do mal. Era necessário destruí-las para afirmar o bem, a santa religião. Elas eram figuras castrantes e o medo do homem, de que elas lhe arrancassem o pênis, era uma fantasia de impotência ou castração. A Lilith medieval caçava recém-nascidos e crianças não batizadas pra matá-las e devorá-las, como nos rituais das Lâmias. O Diabo é a sombra de Deus, a esfera instintiva mais obscura do homem. É sinônimo de tentação, luxúria e mal. A bruxa vai ao Sabá, a grandiosa epifania das forças vitais liberadas, mas só no século XVI o Sabá foi atribuído a elas. Até então era cerimônia ou assembléia de pessoas heréticas ou mal vistas pela igreja oficial. A caça às bruxas durou de 1484 a 1877 e queimou milhões de mulheres. Conservam a estrutura das assembléias e o ritual da dança em círculo em torno do fogo aceso nas noites sem lua. Bruxas e bruxos se dão as mãos, dançam e gritam palavras mágicas. Adoram Diana, Hécate e algum deus solar. Respeitam o calendário dos Sabás: 1o de maio, 1o de novembro (ou 31 de outubro) e 2 de fevereiro.
Lilith se manifesta no século XX onde o homem abre um novo caminho para a pesquisa do próprio mundo interno, nunca antes questionado tão profundamente. Retorna na pesquisa astrológica orientada pelo sincronismo, em épocas remotas. Lilith age na astrologia moderna como um fator psicossexual patológico e de desvio comportamental. Ela vem como o despertar da consciência feminina. Chamar Lilith de volta significa aproximar a visão dessa imagem arcaica do feminino, odiada, temida e negada e, enfrentando-a, tentar a reintegração no arquétipo, superando imensas resistências. O século XX viveu uma tentativa de recuperação simbólica do feminino na assunção de Maria aos céus, mas faltava a descida aos infernos para proclamar a realidade de Lilith. Para a psicologia profunda, temas e personagens da mitologia existem na realidade psíquica. Ela se volta à mitologia para compreender a nós mesmos no presente. Na astronomia a Lua Negra é referida como Lilith imaterial constituída do segundo buraco negro da órbita astronômica lunar. A bruxa só existe enquanto alguém acredita nos efeitos de sua ação.
Lilith se manifesta na linguagem onírica. Ela assume sua imagem terrífica definitiva em Pandora ou Aurélia, nas quais se encontram Hécate e Perséfone. O lado negro é sempre o aspecto Lilith, sempre reprimido no inconsciente. No tema natal de Nietzsche a Lua Negra diz respeito à relação com o feminino, a Ânima, a mulher e Nietzsche vive sua Lilith em Lou Salomé. A evolução da Ânima aqui é assinalada pelo contraste entre aspiração ideal, sublimação e demandas do cotidiano concreto. A Lua Negra aqui se encontra oposta à Lua: fuga da mulher e sublimação. Lilith, no setor do horóscopo da relação com o parceiro, açula as sugestões eróticas ao máximo grau.
As Origens

Se nosso intuito é o de entender melhor o feminino, faz-se obrigatório que entendamos o matriarcado e sua estrutura social. Para tanto, devemos retroceder no tempo até chegarmos a uma época perdida e esquecida, nos primórdio da aventura humana neste planeta. Tempos em que o ser humano propriamente dito ainda nem existia... Imagine-se na Pré-História, no período Paleolítico Inferior, há cerca de 500 mil anos. Nessas épocas a Terra era habitada por hominídeos, muito mais mamíferos superiores com aparência simiesca, do que humanos. Estes eram os Australopitecos, os Pitecantropos e os Paleantropos. Estes seres já possuíam instrumentos, ainda que extremamente toscos e rudimentares, feitos de pedra lascada e troncos de madeira. Viviam em bandos que vagavam pelas estepes e subiam em árvores, habitavam cavernas fugindo de seus predadores e mudavam constantemente de lugar, em busca de caça e de vegetais comestíveis.
Estes hominídeos ainda estavam sob os comandos da Mãe Natureza e possuíam instintos muito mais gritantes dos que os nossos. Sendo assim, as “fêmeas humanas” (não eram propriamente mulheres) ainda possuíam um período de cio, como qualquer fêmea de mamífero, e somente copulavam nestes períodos. O cio ocorria uma vez por ano, em noites de lua cheia bem no auge do verão. Nestes período de cio havia a cópula em “orgias” de sexo grupal e bissexual. Sendo assim, todas as fêmeas férteis do bando ficavam prenhas e passavam por um longo período gestacional (9 meses ou 40 semanas) até darem à luz seus filhotes, que nasciam no início da primavera. Amamentavam-nos por cerca de 3 meses, quando voltavam a ovular e entravam em novo período de cio. Este ciclo coincidia exatamente com o ciclo das estações do ano e todas as fêmeas seguiam juntas estes caminhos da Mãe Natureza. Os machos eram relegados a um segundo plano durante todo o ano, com exceção do período do cio, claro. Sendo assim, a homossexualidade entre os machos era extremamente comum, como ocorre com qualquer mamífero. A sexualidade humana era eminentemente animal, instintiva e comandada unicamente por hormônios.
Com o desenvolvimento da consciência humana, houve a associação evidente do ciclo reprodutivo feminino com o ciclo da Natureza. As fêmeas passaram a ser reverenciadas como deusas encarnadas, como representantes vivas da Mãe Natureza, como portadoras dos Mistérios da Criação, da vida e da morte. As tarefas do bando iam sendo aos poucos divididas entre seus membros, de forma que às mulheres cabiam as funções mais sagradas: cuidar da prole, cuidar da alimentação do bando, cuidar da caverna e reverenciar a Deusa Mãe. Os homens ficavam com as tarefas mais arriscadas e difíceis, pois não eram assim tão importantes para a manutenção bando: a caça, a pesca, a segurança e a coleta em locais distantes da caverna.
Quando pela primeira vez um humano teve a brilhante idéia de se aproximar de uma árvore que estava em chamas, num incêndio causado talvez por um raio, e empunhar uma tocha, trazendo-a para dentro da caverna, este humano que primeiramente roubou o fogo dos deuses, foi uma mulher. O fogo necessitava ser alimentado e mantido aceso dia e noite, pois não era possível fazê-lo, apenas recolhê-lo da Mãe Natureza. Esta nobilíssima função era invariavelmente delegada a uma mulher. A importância divina da mulher na sociedade crescia com o tempo e aumentava com o ampliar da consciência.
Com o passar do tempo, o ser humano se aprimorou física e psiquicamente, transformando seus genes e sua aparência, chegando a se tornar um honrado exemplar do gênero Homo. Aparece então o Homem de Neanderthal, que já usava roupas feitas com peles, possuía vários instrumentos e utensílios domésticos feitos de pedras lascadas, ossos, gravetos e cordas e possuía uma estrutura social muito mais elaborada. Ainda não eram exatamente Humanos, mas já eram bem mais independentes da ditadura hormonal. A sociedade se centralizava ao redor da figura da Matriarca: mulher mais velha e sábia, que provavelmente era a mãe de todos. Esta pequena estrutura familiar chama-se clã. As funções ainda eram as mesmas, mas às mulheres cabiam agora os poderes divinos de traduzir ao clã os caminhos da Grande Mãe. A Matriarca, como representante maior da Deusa da Terra, orientava os membros do clã, com doçura e firmeza, mostrando a todos os ciclos sagrados da Mãe. No Matriarcado nunca houve leis ou punições. Os desígnios da Mãe eram com candura acatados por todos e ditados pela Matriarca. O que antes era simplesmente o cio, agora já era propriamente um ritual de fertilidade comandado pela Matriarca. A idéia era a mesma, mas a concepção racional de ritualidade era muito mais elaborada. Duas datas eram marcantes nesta visão religiosa pré-histórica: o ritual de fertilidade do verão, a celebração do nascimento dos filhotes. A comemoração da geração da vida, da fertilidade da Mãe e do eterno recomeço. Neste ponto, já estamos há 30 mil anos, no início do período Paleolítico Superior.
Caminhavam então sobre a terra, os primeiros humanos propriamente ditos: Homo sapiens. Apareceram misteriosamente estes humanos, primos próximos dos Homens de Neanderthal, mas muitíssimo mais habilidosos, inteligentes e elaborados. As primeiras noções de arte apareceram: pinturas nas paredes da cavernas, elaboradas e mágicas, são encontradas em abundância datadas deste período em diante. Os humanos passaram a usar ornamentos e pinturas sobre o corpo, não mais apenas a se agasalharem do frio com peles. As técnicas de caça, pesca e coleta se tornaram muito mais requintadas e organizadas. Infelizmente a agressividade humana também: estes nossos ancestrais exterminaram totalmente as populações de Homens de Neanderthal, saqueando seus acampamentos, capturando-os como escravos, matando-os por prazer e, por fim, levando-os à extinção completa. A noção de religião e espiritualidade que estes Humanos possuíam eram igualmente bem mais requintadas: já havia a noção de morte e rituais funéreos eram feitos com freqüência. A idéia de Magia norteava todos os rituais. A Magia era o poder da Matriarca que encarnava a Grande Mãe. Matriarca, Natureza e a Deusa eram uma só pessoa: divina, eterna e cíclica. Quatro datas do ano passaram a ser reverenciadas: o solstício de verão (dia mais longo do ano), data de celebração da fertilidade e do ritual de procriação; o equinócio de outono (dia equivalente em tamanho com a noite no início do outono), data da celebração da morte e dos ritos funerais; o solstício de inverno (noite mais longa do ano), data da celebração da esperança do renascimento na Natureza; o equinócio de primavera (dia equivalente em tamanho com a noite no início da primavera), data da celebração do nascimentos dos bebês e do renascimento da Natureza. A escultura conhecida com “Vênus de Willendorf” (ao lado) data deste período e é a representação máxima desta era: arte, religião, Magia, Deusa Mãe, Natureza, Deusa da Terra. Trata-se da representação em pedra de uma figura feminina prenha, esférica e maternal, escultura considerada a obra de arte mais antiga de toda a aventura humana. Já estamos então há 18 mil anos, no início do período Neolítico.
Uma tremenda mudança estava então para acontecer: o domínio da agricultura e o domínio definitivo sobre o fogo. Alguém conseguiu pela fricção de bastões de madeira, criar o fogo, sem haver mais a necessidade de roubá-lo na Natureza. Esta pessoa foi uma Matriarca. Alguém tomou o cuidado de observar que algumas plantas cresciam perto dos locais onde os restos de comida eram jogados fora. Esta pessoa com certeza foi uma Matriarca. A Magia da Mãe dava sinais de que o renascimento era possível também com os grãos e sementes. Toda a idéia da agricultura surgiu daí: se entregarmos à Deusa nossas sementes e confiarmos no Ciclo da Mãe, Ela nos recompensará com novas plantas e novos grão. Aparece a idéia de sacrifício (ofício sagrado). Quando fizermos nossas colheitas, uma parte das dádivas da Mãe será separada para o sacrifício: o melhor grão para a Grande Mãe. Este melhor grão não poderá ser tocado por mãos humanas e não servirá de alimento, mas será devolvido à Terra, como prova de confiança e como esperança de um renascimento no futuro. E assim era feito, no final do outono. Durante todo o inverno o clã sobrevivia dos grãos estocados (aveia, sevada e trigo), das frutas secas ou tornadas compotas (maçãs, cerejas e morangos) e dos líquidos sagrados da Mãe (leite, mel e sangue). Na primavera a Magia da Mãe se fazia ver no nascimento dos bebês e no crescimento dos campos verdejantes, nas temperaturas amenas que se sucederam à era glacial e no florescimento dos vegetais. Os verdes campos davam lugar durante o verão aos campos dourados da mãe que aguardavam a ceifa. No equinócio de outono, numa noite de lua nova, quando a Lua tomava o aspecto da foice em tons avermelhados no céu logo após o por do sol, o trigo era ceifado e o grão para o próximo sacrifício era separado pela Matriarca. Eis os Mistérios da Mãe, eis o Ciclo Mágico da Vida, eis os trabalhos da Deusa!
Com o passar do tempo, a agricultura proporcionou ao homem uma possibilidade dele se tornar sedentário e se fixar em um só lugar: sua terra, como reflexo da Deusa da Terra. As cavernas, há tantos milênios usadas como proteção, já não eram tão necessárias. Pequenas aldeias com construções de palha e argila era edificadas surgiam aqui e ali, nos agrupamentos mais evoluídos. Formas circulares se faziam notar por todos os lados, reproduzindo o Ciclo Sagrado. Apareceu a roda, apareceram os instrumentos agrícolas, apareceram as artes da cerâmica, apareceram adornos corporais mais elaborados, apareceu a pedra polida. Esta nova estrutura social recebe o nome de tribo. Apareceriam ainda, porém muitas outras novidades para o espanto da Matriarca...
Foi numa noite quente de verão, quando a lua cheia iluminava a escuridão e tornava as estrelas mais pálidas, que uma mulher atingiu um nível de consciência tal que lhe permitiu dizer uma palavra mágica, a mais mágica de todas as palavras: “não!”. Esta mulher que disse “não”, recusou-se a participar do ritual de fertilidade do solstício de verão. Ela era independente, ousada e auto-suficiente. Disse “não”, enfrentou a Matriarca e a Deusa Mãe e realmente se afastou dos gemidos que preenchiam a noite quente. Ficou lá, solitária na floresta a observar a Lua. Exatamente 14 dias após este evento, algo sobrenatural ocorreu a esta mulher insubordinada: ela menstruou. Jamais em bilhões de anos de História deste planeta, havia se visto algo semelhante. Nenhuma Fêmea de mamífero menstrua, pois os animais não conseguem dizer “não” aos desígnios da Mãe. Mas esta mulher, por livre e espontânea vontade, negou-se à fertilidade, desafiou a Deusa e foi por ela punida: o sangue era a marca da maldição da Mãe. A mulher foi expulsa da tribo e condenada a viver só, na floresta. Esta mulher, sinistra e marcada pela maldição, abandonou para sempre os Ciclos da Mãe Terra e passou a seguir os Ciclos da Mãe Lua. Filha da Lua ela era e a cada 28 dias, a cada lua, sob as sombras da foice da Lua Negra, ela sangrava. E a esta altura, já estamos nós há 7 mil anos, no início do período Agropastoril.
A Agricultura se expandiu, animais foram domesticados e o cão, o gato, a cabra, o carneiro e a vaca se tornaram aliados inseparáveis da Humanidade. Utensílios domésticos e ferramentas eram feitas não só de pedra polida, mas também de cerâmica finamente trabalhada, de madeira entalhada e polida e cordas e tecidos bem mais elaborados eram feitos nos teares das Matriarcas. A aldeia e a tribo passou a ser definitivamente o local onde os humanos habitavam. As cavernas foram para sempre esquecidas e espíritos maus passaram a habitá-las. A religião tornava-se cada mais complexa, mas a Deusa Mãe ainda era o centro do mundo. No verão, rituais de fertilidade encontravam lugar nas noites de lua cheia. No outono, a colheita e o plantio seguiam o ofício sagrado. A idéia de que o sacrifico do grão necessitava de um sacrifico maior para acompanhá-lo, levou as Matriarcas a adotarem neste período o sacrifico humano como regra. Sob a foice vermelha da lua negra, um homem forte e robusto, o melhor grão da tribo, entregava-se à foice da Matriarca em sacrifico à Deusa. Suas carnes eram o alimento da tribo. Seu sangue fecundava os campos e seu coração era pela Matriarca devorado, para que ele, tal quel o trigo nos campos, pudesse dela renascer na primavera. No inverno, o recolhimento de toda a tribo em torno do fogo, marcava a celebração da esperança por tempos melhores. Na primavera toda a tribo se alegrava com as flores, com o nascimento dos bebês e com o renascimento do filho da matriarca. Os Caminhos da Mãe eram seguidos à risca.
Longe dali, porém, uma mulher marcada pelo sangue não participava de nada disto. Concentrava-se em sua vida solitária, em suas ervas medicinais, em suas poções e ungüentos, em seu contato com os animais silvestres e reverencia a Lua como Deusa. Suas companhias era o gato. Não foram poucas vezes que homens tentaram seduzir estas mulheres enigmáticas da floresta, mas elas sempre preferia a companhia de outras mulheres e da Deusa Lua. Alguns desses homens submeteram-se às bruxas e lá com elas ficaram, tornando-se magos. Outros foram simplesmente por elas mortos. Muito comum era o hábito destas mulheres raptarem bebês para criá-los como filhos ou para com eles elaborarem poções mágicas. Igualmente não foram poucas as vezes que as Matriarcas se aproximaram destas mulheres-bruxas, para pedir-lhes conselhos de magia, para implorar-lhes a cura de males, para consultar-lhes a sabedoria. Eis as origens histórico-sociais de Lilith.
Com o passar do tempo, o culto à Lua e o culto à Terra se reunificaram em uma única religião matriarcal. Existiram sociedades matriarcais compostas exclusivamente por mulheres, e outras mistas, nas quais os homens eram vistos sempre como seres inferiores. As mulheres eram todas deusas e a Matriarca era a Deusa Terra, enquanto a bruxa era a Deusa Lua. O Matriarcado chegava a seu apogeu há aproximadamente 6 mil anos passados, no início do período urbano. Nesse tempo, com certas variações de um lugar para outro, de uma sociedade para outra, ocorreu a maior revolução social de que se tem notícia até hoje: a revolução sexual masculina. Os homens, cansados de serem relegados a um segundo plano e à inferioridade social, resolveram “virar a mesa”. Para tal, usaram aquilo a que vinham se dedicando com afinco há centenas de milhares de anos: a força bruta. Acostumados que estavam com os instrumentos de caça e de guerra, usaram a força para subjugar a Matriarca. Muitas mulheres foram dizimadas, mutiladas, violentadas e escravizadas pelos homens enfurecidos. Passado o calor desta primeira manifestação de cólera contra a tirania feminina, a razão falou mais alto e os novos senhores da tribo, os Patriarcas, depararam-se com um problema de ordem prática: se as mulheres são divinas porque são mães, como será possível a um homem adquirir o mesmo status ? Somente sendo ele pai. Mas como um homem pode se tornar pai se não é ele que gera os filhos? Obrigando as mulheres a serem absolutamente fiéis e celibatárias. A sexualidade feminina foi então massacrada. “Toda mulher somente poderá ter um homem”. “Toda mulher deverá se conservar virgem para ser aceita por seu esposo”. “Toda mulher é propriedade de seu pai, quem deverá decidir com ela deve se casar”. “É proibido que as mulheres tenham sexo com seus filhos e irmãos (únicos machos a quem elas teriam acesso, mesmo assim, restrito)”. “Toda mulher é um ser inferior e, como ser desprovido de pensamento, deve absoluta obediência aos homens”. Estas foram as primeiras leis da Humanidade. Leis cuja desobediência era invariavelmente punida com a morte.
As religiões matriarcais foram perseguidas e combatidas com violência. As matriarcas e as bruxas eram assassinadas em nome do Patriarcado. O medo irracional do homem pelo retorno a uma condição inferiorizada num possível Matriarcado renascido, fez com que o Patriarcado abominasse qualquer coisa que o lembrasse dos tempos esquecidos da Grande Mãe. A homossexualidade era mal vista, principalmente a masculina. A Deusa Mãe foi substituída pelo Deus Pai. Os Ciclos da Terra e os Ciclos da Alma Humana foram relegados a um plano puramente biológico e o tempo se tornou linear, marcado por eventos eminentemente masculinos: guerras, conquistas, reis, poder, opressão e violência. Rituais de iniciação passaram a ser impostos aos jovens rapazes, para que eles fossem aceitos na sociedade como homens e se diferenciassem das mulheres. O falo ereto passou o símbolo máximo da cultura desta época e mantém-se até hoje ereto, sob forma de obeliscos, torres, bandeiras, estandartes, cetros e cajados. O amor à Pátria e o temor a Deus são as conseqüências deste falo ereto e opressor. Foi por estas transformações sociais profundas trazidas pela Pátria que Lilith passou a ser relegada a um âmbito sombrio e assumiu as características demoníacas que conhecemos.
As datas da Grande Mãe foram incorporadas às religiões patriarcais, bem como seus ritos. O solstício de verão, com suas danças rituais de fertilidade em torno do fogo eterno, deu origem às festas folclóricas de roda (como as festas juninas, por exemplo). O equinócio de outono, com os festejos da colheita, deu origem às comemoração da Natureza e da Vindima, bem como os sacrifícios da semeadura originaram as festas de Halloween e as celebrações do dia dos mortos. O ritual do sacrifício humano da semeadura, originou toda a liturgia católica da Missa, com o sacrifício do Filho de Deus, a distribuição de sua carne, transubstanciada em pão e de seu sangue, transubstanciado em vinho. A celebração da esperança no inverno originou os festejos do Natal cristão e da Hanukah hebraica. A celebração do renascimento da Natureza na primavera e os festejos da chegada dos rebentos, deu origem à Páscoa cristã e ao Pessach hebraico. O ano romano se iniciava em Aprile, marcando o renascer do Ciclo da Mãe, bem como até hoje o ano chinês.
Milênios de opressão Patriarcal se passaram em variadíssimas expressões de violência não só contra a mulher, mas contra tudo e todos que pudessem se opor às idéias do Patriarca ou que pudessem incitar seus medos trancafiados no Inconsciente Coletivo. Mas, um renascimento, como sempre faz a Mãe, estava por vir... Somente nos anos 60 do século passado, mais de 6 mil anos após a instauração do Patriarcado, as mullheres cansadas de opressão se rebelaram. À elas se somaram muitos jovens que reinvidicavam liberdade. Quebraram os grilhões da ditadura machista e clamaram por novos tempos de paz, amor e igualdade. Todos os símbolos ligados ao Pai foram destruídos sistematicamente e mulher resgatou sua condição de cidadã livre e auto-suficiente. “Coincidentemente” foi exatamente nesta época que o mito de Lilith ressurgiu do Inconsciente Coletivo humano novamente. Infelizmente esta batalha ainda está apenas em seus primórdios e na Terra ainda existem inúmeras sociedades machistas e repressoras, enquanto mesmo as sociedades tidas como mais liberais, ainda mantém em si uma configuração claramente patriarcal.
As Vestes de Afrodite
Depois de termos visto todos estes aspectos, compreendemos que Llith é apenas uma das faces do feminino, da Ânima. Face esta que se apresenta ciclicamente na Natureza: no inverno ou na Lua Negra e se caracteriza pela ausência da Mãe. Na sociedade Lilith se dá a conhecer como uma reação à opressão machista. A mulher sempre foi um enigma para o homem, mas é exatamente este mistério que o atrai, que desperta nele uma vontade de investigar de perto o desconhecido. O “eterno feminino” é um tema sempre atual, apesar dele surgir como fonte de inspiração desde os tempos primevos da pré-história onde um anônimo ancestral da raça humana esculpiu em uma pedra as formas opulentas de um corpo feminino: a Vênus de Willendorf. Este escultor realçou as formas dando bastante volume às ancas e seios, mas a imagem parece meio disforme, talvez por se tratar de uma mulher adulta, conhecendo a mesma os processos de transformação no corpo devido à maternidade. O mistério da alma feminina encontrou nas mitologias das primeiras civilizações da Terra o tema ideal para que através do mito fosse possível tentar compreender o enigma.
Ao soar meia noite em ponto, onde provavelmente todas as criaturas da noite estejam despertas entre morcegos, corujas, pássaros agoureiros, répteis, insetos venenosos e peçonhentos, seres pertencentes à escuridão, veremos a filha de Satã levantar de seu túmulo, com suas roupas e véus esvoaçantes ao vento, seus cabelos negros exalando perfumes de flores, principalmente a “dama da noite”, aquela essência doce que enche a noite de magia e mistério, sentimento que temos ante o aroma desta planta em alguma rua deserta... Como um louco que vê a morte e não teme o seu poder de aniquilamento, Lilith caminha à nossa direção, voa como uma coruja até nossa morada, invade nossa vida privada, seduz nossa alma pagã de solitário! Suga o nosso sangue mas nos dá prazer, e o prazer segundo Oscar Wilde, é “a única coisa na vida que vale a pena!”. Deixemo-nos seduzir por esta força oculta, mas um lembrete que pode entoar como advertência: “Cuidado homens inocentes, com Lilith. Ela é um símbolo, uma força inconsciente oculta dentro da mulher, onde o seu poder pode ser de prazer ou dor, amor ou ódio”.
A imagem que mais correta e completamente apresenta-nos estas facetas do feminino certamente é representado por Afrodite, deusa da tradição helênica. Para os gregos, Afrodite era a própria personificação do desejo, do amor e do prazer sensual. Sua origem é bastante controvertida, e pode remontar à época micênica. Há também nítidas semelhanças entre Afrodite, a Istar-Astarte semita e a Grande Mãe neolítica, senhora dos animais e símbolo da fertilidade.
Há duas versões correntes para o nascimento de Afrodite. A versão mais antiga é provavelmente a divulgada por Hesíodo, que a dá como filha de Urano; a mais recente, mencionada por Homero, Eurípides e Apolodoro, relata ser ela filha de Zeus e Dione. O local de seu nascimento pode ter sido a ilha de Citera, ao sul do Peloponeso, ou Chipre; daí ela ser freqüentemente chamada de "Citeréia" ou de "Cípris". Embora casada com Hefesto, o deus do fogo, Afrodite teve pelo menos dois amantes notáveis: Ares, o deus da guerra, e Anquises, um descendente de Trós, o primeiro rei de Tróia. De sua ligação com Ares nasceram Eros, o deus que desperta paixões em homens e deuses com suas flechas; Fobos e Deimos, o medo e o pavor; e a bela Harmonia. De Anquises nasceu o herói troiano Enéias, considerado pelos romanos ancestral de Rômulo e Remo, os míticos fundadores de Roma.
Afrodite é personagem de numerosas lendas, e eram especialmente notórias suas vinganças quando não era reconhecida ou era menosprezada por alguém. Exceção à regra é a sua participação na lenda de Pigmalião. Além dessa lenda, a do Julgamento de Páris, a de Adônis, a de Psiquê e a de Teseu e Hipólito, o episódio mais famoso é o da rede de Hefesto, contado por Homero. Mas a nós, o que nos interessa agora é o mito que nos conta de suas quatro roupagens, o que inevitavelmente nos remete às quatro faces do feminino.
Nos Períodos Arcaico e Clássico Afrodite era representada como uma mulher bela e jovem, sempre vestida, às vezes com um certo ar lânguido que apenas insinuava seu 'status' de deusa do amor. A partir do fim do Período Clássico, após a Afrodite de Cnidos, famosíssima escultura de Praxíteles, passou a ser mostrada com formas voluptuosas, nua ou sumariamente vestida, em poses nitidamente provocantes. Nas pinturas de vasos, no entanto, quase sempre aparecia vestida. Mas o mito nos fala de quatro vestes que foram recebidas por Afrodite das mãos da Horas, as ninfas de Chronos, o Tempo. Isto sugere que conforme as hortas passam, conforme o tempo passa, Afrodite muda suas vestes, suas aparências, sua essência.

Afrodite nasceu das espumas do mar como Anadyomene (“a que se eleva do mar"). Sua roupagem é branca como é a espuma (em Grego: “aphros”, “Aphodites”: “as que veio da espuma”). Ë a mais bela de todas as deusas, capaz de inspirar o amor em qualquer seu vivente, mortal ou imortal. Deusa mãe, é a deusa da vida, é o dom da vida que vem das profundezas do mar. Neste sentido é deidade similar a Yemanjah e a Maria (do Latim “mare”, do Hebraico “Miriam”: “a que veio do mar”), ligada à noite, à lua e às estrelas.
Por sobre suas vestes alvas, Afrodite usa um manto azul. Nesta roupagem se eleva aos céus e se torna Urânia (“celeste”), a Virgem dos Céus. Recepcionada nas alturas por seu pai Urano, o Céu, Afrodite dele recebe uma coroa de estrelas e um cinturão de constelações chamado Zodíaco (do Grego “Zoon Kiklon”, “o Círculo dos Animais”). Urânia, ou Afrodite Urânica, é a conhecida Sofia (do Grego “sophia”, “sabedoria”) que traz das alturas eternas as verdades imutáveis do mundo, a sabedoria. Tais verdades ela sussurra e revela aos ouvidos de seus amigos e “manter amizade com Sofia” se diz em Grego “philosophia”. Esta Urânia sábia, pura, bela e casta, vestida de azul e branco e coroada de estrelas pode ser imadiatamente associada à Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida.
Mas conforme o tempo passa Afrodite mais uma vez muda suas vestes e transforma sua essência. Desta vez se apresenta vestida de vermelho e é chamada de “Pandemia”, “aquela que a todos os povos atinge” e insufla ao seu redor o “pandemônio”, criando a paixão e insuflando a sexualidade. Afrodite Pandemia é o amor carnal, o instinto sexual e a volúpia desenfreada. Neste sentido tem muito em comum com Lilith, “feita de sangue e saliva”, e resgata a sexualidade feminina livre e nascente, recordando os rituais de fertilidade do verão e da lua cheia.
Por sobre as vestes vermelhas Afrodite usa um manto negro e cobre seu rosto com um capuz. Nesta apresentação, empunhando uma foice (ou para ser exato um alfanje) Afrodite que já se apresentou como a vida, agora se apresenta como a morte. A deusa ceifa as vidas dos mortais, tal qual o agricultor ceifa o trigo dourado nos campos. Mas a morte não é fim: como a semente que desce às trevas das profundezas da terra, o morto há de renascer na primavera, na Páscoa. Afrodite oculta seu rosto para que ninguém se apaixone pela morte e venha a descobrir seu segredo: a morte é tão bela quanto a vida e é a mesma e única deusa mãe que nos dá a vida e a morte, o nascimento e a ressurreição, em seu ciclo eterno, perfeito e harmônico.
Marias
Da união da imagem de Afrodite à imagem da deusa latina Fortuna, emerge das águas Maria. Em Hebraico o nome “Miriam” significa “aquela que veio do mar” e foi traduzido para o Latim com “Maria” (“aquela que veio do mar”). Fortuna era a deusa romana que trazia nas mãos a roda do destino (a Roda da Fortuna). Deusa celeste com temperamento agitado e imprevisível, Fortuna, vestida de branco com seu manto azul, ornava suas vestes com o cinturão de estrelas.
Maria é então a amálgama católica de todas estas Deusas Mães, verdadeira representante atual da chamada Grande Mãe. No Brasil, sabemos que a expressão máxima de Maria se dá na forma de Nossa Senhora Aparecida. Em 1717, na cidade de Guaratinguetá, Estado de São Paulo, Brasil, após várias horas pescando sem resultados, três pescadores retiraram do rio Paraíba o corpo de uma imagem sem cabeça. Em seguida, lançada a rede novamente, encontraram a cabeça da imagem. Surpresos, lançaram a rede pela terceira vez e a pescaria foi tanta que puderam encher suas canoas. Esses três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, limparam a imagem apanhada no rio e notaram que se tratava da imagem de Nossa Senhora da Conceição, de cor escura. A imagem foi levada, a princípio, ao oratório de sua humilde casa, e diante dela realizavam suas orações. E desde aquele tempo Nossa Senhora começou a fazer milagres ali devido à crescente devoção do povo. Em 1745 foi construída uma capela no morro dos coqueiros, que margeia o Paraíba e uma missa foi celebrada. A imagem passou a ser chamada de Aparecida e deu origem à cidade de mesmo nome. Em 1888 a antiga capela foi substituída por outra maior. Em 8 de setembro de 1904 foi realizada a solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, e em 1908, o santuário foi elevado à dignidade de Basílica pelo Papa. Em 1930, o Papa Pio XI, proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Em 1967, no aniversário de 250 anos de devoção, o Papa Paulo VI ofereceu a Rosa de Ouro ao Santuário Nacional inteiramente dedicado à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A partir de 1950 já se pensava na construção de um novo templo mariano devido ao crescente número de romarias. O majestoso templo foi consagrado pelo Papa, após mais de vinte e cinco anos de construção, no dia 4 de julho de 1980, na primeira visita de João Paulo II ao Brasil.
A própria imagem de Nossa Senhora Aparecida resume em si, todas as qualidades de síntese cultural, de conciliação e da unidade da qual estamos falando. E sem dúvida, sua "aparição" foi uma clara resposta, desde a fé, a todo esse difícil contexto político-social que atravessava a Colônia no início do s. XVIII. Olhemos para a imagem. Nela se encontram o português (a imagem é uma réplica da Padroeira de Portugal e do Brasil, Nossa Senhora da Conceição, que desde 1646 fazia parte da devoção de D. João IV e de toda as suas colônias); o brasileiro (a imagem foi feita, segundo estudos, com "terracota", barro paulista característico da região encontrada); o índio (a imagem foi encontrada no rio indígena "Para`iwa", passo entre Minas, Rio e São Paulo, hoje, Rio Paraíba do Sul); e o negro (a imagem possui uma cor castanho escuro, tendendo ao negro). Até mesmo o manto negro da morte está na imagem contido quando se diz “Santa Maria rogai por nós agora e na hora de nossa morte”. Mas um aspecto está ainda faltando: Lilith. Maria com seu ar virginal e casto não comporta toda a volúpia e o gozo que trazem Lilith e as vestes vermelhas de Afrodite. Quem carrega este lado na tradição católica é outra Maria: Madalena.
Lucas diz-nos que, entre as mulheres que seguiam Jesus e o assistiam com seus bens, estava Maria Madalena, ou seja, uma mulher chamada Maria, que era originária de Migdal Nunayah (Magdala), Tariquea em grego, uma pequena povoação junto ao lago da Galiléia, a 5,5 km ao norte de Tiberíades. Dela Jesus havia expulsado sete demônios, o que equivale dizer “todos os demônios”. A expressão pode ser entendida tanto como uma possessão diabólica quanto como uma doença do corpo ou do espírito. Os Evangelhos sinópticos a mencionam como a primeira de um grupo de mulheres que contemplou, de longe, a crucificação de Jesus e que permaneceu sentada em frente ao sepulcro, enquanto sepultavam Jesus. Assinalam que, na madrugada do dia depois do sábado, Maria Madalena e outras mulheres voltaram ao sepulcro para ungir o corpo com os perfumes que haviam comprado; é, então, que um anjo lhes comunica que Jesus havia ressuscitado e as encarrega de levarem a notícia aos discípulos.
São João apresenta os mesmos fatos com pequenas variações. Maria Madalena está junto à Virgem Maria ao pé da cruz. Depois do sábado, quando ainda era noite, ela se aproxima do sepulcro, vê a pedra afastada e avisa Pedro, pensando que alguém tinha roubado o corpo de Jesus. Voltando ao sepulcro, enquanto chora, encontra-se com Jesus ressuscitado que a encarrega de anunciar aos discípulos a Sua volta ao Pai. Esta é a sua glória. Por isso, a Tradição, na Igreja Oriental, a chamou de isapóstolos “igual a um apóstolo” e, na Igreja Ocidental, apostola apostolorum “apóstolo dos apóstolos”. Uma tradição do Oriente diz que ela foi enterrada em Éfeso e que suas relíquias foram levadas para Constantinopla no século IX.
Maria Madalena foi identificada freqüentemente com outras mulheres que aparecem nos Evangelhos. Na Igreja Latina, a partir dos séculos VI e VII, houve a tendência de identificar Maria Madalena com a mulher pecadora que na casa de Simão, o fariseu, ungiu os pés de Jesus com suas lágrimas. Por outro lado, alguns Padres a escritores eclesiásticos, harmonizando os evangelhos, já haviam identificado esta mulher pecadora com Maria, irmã de Lázaro, que em Betânia unge com um perfume a cabeça de Jesus. Mateus e Marcos, no trecho correspondente, não mencionam o nome de Maria, apenas dizendo tratar-se de uma mulher e que a unção ocorreu na casa de Simão, o leproso. Em conseqüência disso, no Ocidente, devido principalmente a São Gregório, generalizou-se a idéia de que as três mulheres eram uma só pessoa.
Mas os dados evangélicos sugerem apenas que se deve identificar Maria Madalena com a Maria que unge Jesus em Betânia, pois presumivelmente é a irmã de Lázaro. Os evangelhos também não permitem deduzir que seja a mesma que a pecadora que, segundo Lucas, ungiu Jesus, embora a identificação seja compreensível pelo fato de São Lucas, imediatamente depois do relato em que Jesus perdoa esta mulher, mencionar que algumas mulheres o ajudavam, entre elas Maria Madalena, de quem ele havia expulsado sete demônios. Além disso, Jesus elogia o amor da mulher pecadora: muitos pecados lhe são perdoados porque muito amou e também se percebe um grande amor no encontro entre Maria e Jesus depois da Ressurreição. Em todo caso, mesmo em se tratando da mesma mulher, seu passado de pecados não é um desdouro. Pedro foi infiel a Jesus e Paulo um perseguidor dos cristãos. A grandeza deles não está na sua imunidade ao pecado, mas no seu amor.
Magdalena: Santa, prostituta, mulher comum, profeta, seguidora. Tudo isso em uma só mulher e em todas. Madalena mostra que a mulher, apesar de viver numa sociedade patriarcal, traz dentro de si os primórdios do feminino eterno, de Lilith, e que, apesar do surgimento do patriarcado com o Judaísmo e conseqüente Cristianismo, a mulher conserva dentro si as forças que a regem, de mãe e mulher. A beleza da alma feminina, a força, resgate desse feminino, não está na volta do matriarcado e sim, na união entre patriarcado e matriarcado, num fratriarcado. A relação Cristo-Magdalena, diferentemente da ligação Adão-Lilith, não é uma imposição de um sobre o outro e sim uma união, uma identificação onde cada um mantém seu ponto de vista e mesmo assim vislubram a harmonia e a união dos opostos.
Lilith Redimida
Há um grupo brasileiro composto por homens e mulheres que apresenta uma proposta de relacionamento no mínimo curiosa. Este grupo de autodenomina “Matriarca” e apregoa a dominação do “macho” pela mulher. Em um de seus textos encontra-se: “Ao assumir a posição dominante na relação, a mulher está dando um passo importante para reafirmar seu status na sociedade. Ela não é mais submissa ou agente passiva da relação, ao contrário, passa a ser o centro da relação. No plano sexual passar a ser quem decide e determina. Ao assumir o controle da sexualidade masculina ela esta se libertando de séculos de submissão e resgatando os princípios elementares da Fêmea. Está libertando o homem de uma opressão cruel e infame, que nutriu na mente dele uma mentira, a falsa superioridade masculina, que vem torturando e matando uma massa incomensurável de pessoas, principalmente homens, ao longo desse tempo. Diferente da proposta do matriarcado ou do patriarcado tradicional, a Supremacia Feminina, um Matriarcado erótico, é uma proposta de libertação total de homens e Mulheres de todas as idades e níveis sociais. Liberta a Mulher de uma injusta e absurda posição de inferioridade e o homem de uma errônea posição de superioridade. Esse novo status vem se somar às conquistas femininas na vida comum, política e econômica. Vem para suprir uma reclamação feminina quanto à qualidade das relações sexuais e afetivas. O homem machista e egoísta deve dar espaço ao homem submisso e escravo da mulher. Escravo viril, submisso não anulado, mestre na arte de dar prazer à Mulher, não ciumento ou possessivo, homem livre que se dá a escravidão por desejo e alegria, se dá por ser livre para escolher, ir e vir (...). Em verdade são homens livres que se entregam por desejo e paixão, são submissos ao princípio da Femina Suprema, logo, submissos a todas as Mulher Superiores podem ser escravos de uma Mulher por amor e paixão, mas por dedicação e essência são de todas e a todas devem adorar. Esse homem começará um longo e prazeroso caminho de transformação intima. Será um homem seguro nesta nova masculinidade, será feliz com sua nova virilidade. Não será mais um marido ou namorado, será um escravo da Femina Suprema. Como homem livre poderá se entregar sem medos. Livre dos ciúmes patéticos, da insegurança que o castra e o torna impotente, este novo homem gozará a vida como nenhuma outra geração de homens jamais logrou fazê-lo. Por paradoxal de posso parecer, este homem é livre da Mulher, é senhor de sua vida e destino. Por ter reconstruído sua virilidade, por entender o que é a nova masculinidade, ele é forte e inteiro, logo pode prescindir do domínio da Mulher-Mãe, e se dar à Fêmea”.
A dominação do “macho”, o controle da sexualidade masculina e dos instintos agressivos da testosterona, a quebra de hegemonia patriarcal e a definitiva aquisição da igualdade de direitos são as metas. Retornemos, pois, ao texto apresentado pelo grupo ‘Matriarca”: “A virilidade e a potência masculina têm sido objeto de debates ao longo de muitos anos. Um dos focos desse debate está centrado na intensidade destas forças naturais desperdiçadas pelos machos humanos. Em tempos passados era muito valorizado o homem que atingia o clímax sexual rapidamente, era sinal de ‘muito desejo’. Muitos homens se gabavam desse feito como se isso demonstrasse potência e virilidade que deviam ser invejadas pelos outros homens. No entanto, para as Mulheres esse entendimento sempre foi uma tragédia para suas vidas sexuais. Como a Mulher não era o sujeito dessas relações, tinha que se calar e sofrer com a falta de prazer sexual. Com o surgimento do feminismo e da revolução sexual , esse mito, falso mito, de virilidade, caiu por terra revelando uma triste e vergonhosa verdade: a maioria das Mulheres não sentia prazer sexual. E entre outras verdades expostas, estava a da inadequação sexual do homem frente à demanda feminina por prazer. Desconhecimento sobre o corpo e das particularidades e riquezas da sexualidade feminina. Ejaculação precoce, e impotência, principalmente psíquica e emocional, foram e ainda são, constatadas em uma intensidade muito grande. Todos os especialistas apontam entre as causas mais importantes desses problemas o medo do macho em relação ao tamanho do seu pênis e sua potência e o medo dele frente ao poder e superioridade sexual da Mulher. Estes problemas são apenas mais um dos muitos causados pelo poder patriarcal a longo dos séculos. Se o padrão sexual dominante fosse o do Matriarcado Erótico o valor desejado de potência e virilidade seria o feminino. Se a Posse Genital da Mulher sobre o sexo do homem fosse a realidade, o homem já teria se adequado a sua real condição de inferioridade frente à Mulher. Alem do sofrimento da Mulher, igualmente cruel, foi, e é, o sofrer do homem com essa realidade inútil e tola, que pode ser modificada para melhor e mais justa com a submissão do homem à Mulher Superior. Ao aceitar de livre e espontânea vontade a Posse Genital, o homem dá um passo importante para sua libertação sexual a afetiva. Não é a Mulher ou o Matriarcado Erótico que oprime o homem, mas o machismo e o patriarcado. Assim, é fundamental uma nova leitura e visão da virilidade”.
Durante séculos, desde o estabelecimento definitivo do Patriarcado na Sociedade Ocidental pela Civilização Judaico-Cristã (a partir do Século X aC), a mulher vem sofrendo um processo brutal de castração e de controle absoluto de sua sexualidade por parte do “macho”. Como se lê no texto do “Matriarca”, este processo baseia-se no medo como causa, enquanto o medo do macho em se ver dominado e destituído de sua potência, e como arma de coação, enquanto o medo que impõe o controle à força. Em graus variáveis esta castração foi e é exercida sobre a mulher pelo medo. A mulher que se vê desacreditada em sua capacidade intelectual, a mulher que é relegada a um segundo plano no mercado de trabalho, a mulher que se vê impedida de exercer seu direito à propriedade, a mulher que se vê dependente social, econômica e afetivamente do “macho”, a mulher que não reconhece seus filhos como frutos de seu ventre, mas como filhos do “macho”, a mulher que se vê impedida de exercer livremente sua sexualidade, a mulher que é obrigada a “recatar-se”, despida de sua vaidade estética natural, a mulher que se vê mutilada fisicamente por cirurgias de mastectomia e histerectomia, a mulher mutilada pelos terríveis métodos da circuncisão feminina parcial ou total.
Ártemis renascida inverte o jogo e apresenta ao “macho” exatamente as mesmas opções de castração. O intuito aqui não o da simples dominação, como pode parecer aos olhos patriarcais horrorizados, mas o de usar “fogo contra fogo” e fazer o “macho” experimentar um pouco de seu próprio veneno. Esta proposta prática equivale totalmente à perseguição do “macho” pelos cães de Ártemis e o uso do arco e das flechas de prata da deusa para subjugar definitivamente o “macho” e alcançar a liberdade para ambos: macho e fêmea, homem e mulher, Masculino e Feminino. A alternativa é uma sociedade igualitária, onde não haja nem Matriarcas, nem Patriarcas, mas onde todos sejam irmãos e livres, onde o sentimento supremo seja a fraternidade. Esta sociedade, ainda num plano utópico, chamar-se-ia Fratriarcado. Parafraseando Caetano Veloso: se não temos Mátria, temos Pátria, mas queremos Frátria. Devemos lutar contra os preconceitos que nos aprisionam, tornando-nos mais abertos, aceitando em nós a Deusa Mãe e o Deus Pai, em uma perfeita e plena harmonia e sem a plena compreensão e aceitação de Lilith, isto jamais será possível.

“Vênus Urânia, Sol, num poente agoníaco.
Ilusão dos sentidos, flor de espuma.
Lótus de volúpia, os olhos do zodíaco.
Astro do sonho a mergulhar na bruma.
Bruxa cruel, de olhos do infortúnio!
Toda de neve, a cordilheira linha de finos rutílos punhais,
cordilheira da morte, val da morte, para imortais...”
Dário Velloso
Compilação: Bernardo de Gregorio
Ilustrações: Jasper Goodall
Bibliografia e Textos originais:
“Lilith: A Lua Negra” de Roberto Siocuteri
“O Livro de Lilith” de Barbara Black Koltuv
“Mitologia Grega” de Junito de Souza Brandão
“Jardim do éden Revisitado” de Roque de Barros Laraia
“Os Caminhos da Grande Mãe” de Bernardo de Gregorio
“Lilith: A Deusa da Noite” de Rosane Volpatto
“Graecia Antiqua” de Wilson A. Ribeiro Jr.
“Lilith: A Origem do Vampirismo na Mitologia Judaica” de Marcos T. R. Almeida
“Íncubus e Súcubus” de Bernardo de Gregorio
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