TRATANDO DE DEPRESSÃO - Suas causas e efeitos

Introdução

Nos últimos tempos, o termo ‘depressão’ tem sido usado cada vez mais de modo aleatório, servindo apenas para banalizar a gravidade da doença em si e reforçar a idéia de que não se trata de um problema de saúde e sim de, simplesmente, uma alteração “exagerada” de humor que acomete algumas pessoas estressadas ou desequilibradas.

Depressão propriamente como uma única entidade não existe. O que existem são transtornos de humor e reações depressivas (breves ou prolongadas), cujas características, bem como causas, sintomas e tratamentos trataremos com mais cautela, caso a caso.

No entanto, há que se diferenciar – antes de mais nada – o que é a depressão como transtorno psiquiátrico e o que é, na verdade, o sentimento de tristeza que acomete em geral todas as pessoas, em diferentes momentos da vida e também em graus e intensidades distintos.

Caso contrário, correríamos o grave risco de reforçar esta idéia confusa e indiscriminada, colocando sentimentos, emoções, transtornos e doenças num mesmo pacote, o que consequentemente dificulta o tratamento, retarda (ou impede) a cura e causa ainda mais conflitos e angústia àqueles que experimentam os sintomas tão desagradáveis da depressão.

Capítulo 1

A diferença entre tristeza e depressão

Em primeiro lugar, que fique claro: a tristeza é bela, ainda que a tendência dos tempos atuais seja encarar a tristeza de modo equivocado, limitado e negativo, o que não representa – de forma alguma – uma visão real, integrada e humana deste sentimento.

Todos nós, diante de certos acontecimentos, sejam eles concretos ou de esferas menos palpáveis, podemos nos sentir tristes vez ou outra. Acontece que, infelizmente, a maioria das pessoas tende a encarar a tristeza como algo indesejável, da qual deve se livrar o quanto antes e a qualquer custo.

Construímos um perfil enganoso sobre como seja uma pessoa atraente, de sucesso, bem-sucedida e ‘legal’. E terminamos nos convencendo de que neste perfil não cabe a tristeza. De modo que, ao nos depararmos com ela – e isso vai acontecer inevitavelmente – somos pressionados por todos os lados a nos livrar da tristeza de qualquer maneira.

Inúmeras sugestões, tais como sair, dançar, beber, viajar, “ir pra balada” e uma série de outras que estão a serviço, sobretudo, de mascarar os verdadeiros sentimentos, são dadas pelos amigos ou por nós mesmos como tentativa de revertermos o quanto antes essa sensação, tida como tão indesejável e incoerente com uma reputação agradável.

Acontece que, exatamente por isso, perdemos a chance de abstrair da tristeza tudo o que nela está contido de belo e produtivo. Ou seja, em vez de interpretarmos a tristeza como uma grande vilã, deveríamos nos permitir senti-la e vivenciá-la como uma oportunidade de encontrarmos soluções criativas e altamente eficientes para problemas, conflitos e dúvidas pessoais.

Como exemplos deste fato, podemos citar poemas maravilhosos, pinturas extremamente sensíveis, composições tocantes e outras manifestações artísticas inesquecíveis que se deram em momentos de profunda tristeza, evidenciando que, ao nos entregarmos realmente àquilo que estamos sentindo, sem nos rebelarmos ou fingirmos, poderemos assimilar a importância fundamental de cada sentimento, inclusive a dor.

Não se trata de alimentar e sim de transformar a tristeza!

Claro que não queremos aqui fazer um tributo à tristeza, insinuando que alimentá-la ou estendê-la seja a escolha mais inteligente de lidar com ela. O intuito não é intensificar ou prorrogar sentimentos difíceis, mas nos permitirmos experimentá-los como parte do amadurecimento afetivo, emocional e integral de todos nós.

Portanto, ao se perceber invadido pela melancolia, a idéia é que você se permita tornar-se introspectivo, chorar, ficar sozinho e sentir-se de fato triste. Não é preciso fugir ou negar, nem é preciso disfarçar. Muito pelo contrário! O melhor é abraçar a tristeza, é tentar compreender a serviço de que ela se manifesta neste momento.

Não quer sair? Não saia! Não quer falar? Não fale! Não quer se expor? Não se exponha! Respeite-se e usufrua do seu silencio interior como o que ele é: sua verdadeira sabedoria. Apenas espere e esteja atento, porque em algum momento, você terminará descobrindo um caminho, enxergando uma luz, ouvindo uma resposta.

Os sentimentos e o colorido da vida...

Costumo dizer que a tristeza é azul e a alegria é amarela; o amor é rosa e a paixão é vermelha, e assim por diante. Enfim, os sentimentos nos remetem à vibração das cores, como bem explicam os especialistas em cromoterapia. Cada qual com suas experiências e lembranças, por exemplo, pode perceber as nuances de seu humor a partir das cores que escolhe para vestir, calçar, decorar, entre outros, seja num dia, numa fase ou por longos anos de sua vida.

Fazendo uma analogia, podemos dizer que a melancolia é azul índigo, profundo, escuro... Mas colorido, sobretudo; enquanto que a depressão é cinza-chumbo, sem cor, sem luz. E assim fica evidente o quanto esta doença nos rouba a capacidade de reconhecer a graça da vida, simplesmente porque torna o horizonte desinteressante, apático, sem brilho.

Deste modo, fica fácil entender a diferença entre tristeza e depressão. Sentir-se triste é natural, faz parte da dinâmica do ser humano. Enquanto que sentir-se depressivo é característica de um distúrbio ou transtorno psíquico.

A tristeza é bela e criativa, em princípio. Porém, deve ser melhor observada quando, embora seja uma reação a um acontecimento difícil, torna-se prolongada demais, intensa demais, enfim, exagerada em todos os aspectos.

Ainda que a causa seja a morte de um ente querido e próximo, o término de um relacionamento amoroso, uma decepção inesperada com um amigo, a perda do emprego ou problemas financeiros sérios, entre outros, o natural é que haja uma melhora constante; que a pessoa vá se recuperando e se sentindo cada vez mais forte para lidar com o momento que está vivenciando.

Afinal, todos nós contamos com ferramentas internas e competências que nos capacitam a vencer obstáculos, transpor barreiras e superar as dificuldades a que somos submetidos ao longo da vida.

Capítulo 2

Termos específicos e características que identificam a doença

“Depressão” é um termo genérico e popularmente usado para definir o que é observado como estado de tristeza profunda e prolongada. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) usa termos específicos, de acordo com a forma com que o paciente expressa essa ‘tristeza profunda e prolongada’ e a partir do diagnóstico médico que aponta a presença de alguns tipos de transtornos.



Reação depressiva

Quando uma pessoa se sente triste diante de um fato concreto, ou seja, de algum acontecimento entendido pela maioria como justificável, diz-se que tal sentimento é uma reação ‘normal’ e até esperada. Tal comportamento costuma se manifestar durante alguns dias e depois, com o passar do tempo, vai desaparecendo.

Mas quando se prolonga de modo que as pessoas próximas começam a considerá-lo exagerado, é chamado de ‘reação depressiva’ e pode ser percebida porque evidencia que a pessoa está sofrendo sem apresentar melhoras, sem conseguir aceitar determinado acontecimento como parte da vida e passível de lhe proporcionar algum amadurecimento e aprendizado. Ou seja, os dias passam e ela continua tão triste quanto no momento do episódio ou até pior.

Segundo a OMS, a reação depressiva pode se manifestar de dois modos distintos no que se refere à duração dos sintomas:

  1. breve – que tem duração de até um mês;
  2. prolongada – que tem duração de até dois anos. Este é o tipo mais comum de depressão.

Transtornos do Humor

Como o próprio nome diz, as doenças chamadas de ‘transtornos do humor’ se caracterizam pela oscilação do humor (alegria, tristeza, irritação, entusiasmo, etc). Mas há que se verificar outros sintomas associados e a freqüência dessa instabilidade para que se possa fazer um diagnóstico preciso.

Caso contrário, muitas pessoas vislumbrariam a possibilidade de sofrerem deste tipo de transtorno, haja vista que todos nós, dependendo do dia, das circunstâncias e da fase que vivemos, percebemos nosso humor se alterar com mais facilidade, e isto é absolutamente normal e esperado.

Aqui, o que consideramos doença e que requer tratamento medicamentoso, acompanhamento médico e todos os cuidados próprios da enfermidade, é a oscilação recorrente e exagerada, como veremos a seguir, sob o nome de Transtorno Afetivo Bipolar e suas variações.

  1. Transtorno Afetivo Bipolar

Trata-se de um transtorno caracterizado pela ocorrência de dois ou mais episódios em que o humor e o ritmo de atividade da pessoa se mostram profunda e visivelmente perturbados.

Para entendimento mais fácil, poderíamos dizer que o transtorno bipolar faz com que a pessoa fique “fora de rotação”, perca o seu eixo. Ou seja, seu humor não é coerente com os acontecimentos de sua rotina.

Nalgumas ocasiões, acontece elevação do humor e aumento da energia e da atividade (hipomania ou mania) e noutras, rebaixamento do humor e redução da energia e da atividade (depressão).

O termo ‘bipolar’ significa justamente esta oscilação entre os dois pólos opostos do humor – depressivo e eufórico (ou maníaco). Depois de algum tempo de observação e acompanhamento médico, o diagnóstico classifica os pacientes com este comportamento como ‘maníaco-depressivo’, sendo as características:

  1. humor depressivo: caracterizado pelo comportamento desanimado, excessivamente triste, apático, choroso e pessimista;
  2. humor maníaco: caracterizado pelo comportamento eufórico, agitado, agressivo, exageradamente otimista (sem noção da realidade).

Diferentes graus de cada um dos dois pólos

A gravidade de cada pólo será identificada pelo médico psiquiatra, de acordo com o comportamento relatado pelo paciente ou pelos cuidadores dele, ao longo do tratamento e durante as consultas para avaliação e diagnóstico.

Pólo depressivo

  1. depressão grave psicótica*
  2. depressão grave não-psicótica
  3. depressão moderada
  4. depressão leve

Aqui, o termo ‘leve’ não significa que seja bobagem ou que deva ser desconsiderado. Apenas representa uma menor intensidade de depressão quando comparada com o ‘grave’.

Pólo maníaco

  1. furor maníaco
  2. mania psicótica
  3. mania não-psicótica
  4. hipomania**

* Psicótico é o termo usado para identificar pacientes que perdem a noção da realidade e falam coisas ou se comportam como se vivenciassem situações fantasiosas. O comportamento psicótico pode ou não vir acompanhado de agressividade e agitação. Um bom exemplo de mania psicótica (neste caso sem agressividade ou aceleração) é o comportamento do personagem do filme ‘K-Pax’, em que ele acredita que veio de outro planeta.

** A hipomania é um comportamento levemente eufórico, como o da personagem principal do filme ‘Mr. Jones’, vivido pelo ator Richard Gere.

Vale ressaltar que, no estado de depressão grave ou de furor, especialmente quando o paciente não estiver corretamente medicado, seu comportamento pode se apresentar de modo realmente extremado. No pólo maníaco, por exemplo, pode se tornar agressivo e incontrolável, quebrando objetos e machucando a si mesmo e aqueles que estiverem próximos a ele. No pólo depressivo, ao contrário, a pessoa pode se tornar tão apática que não anda, não se alimenta e não fala.

  1. Monopolar (ou depressivo recorrente)

Atualmente, este tipo de transtorno está inserido no grupo dos Bipolares como Depressão recorrente. Antigamente, entretanto, era chamado de Transtorno Monopolar ou, já que diferentemente do paciente que tem oscilação de humor entre o maníaco e o depressivo, este apresenta somente o humor patológico depressivo. Acredita-se que estes pacientes tenham fases maníacas também, mas que estas se apresentem de forma tão ligeira que passem desapercebidas.

Transtornos Persistentes de Humor - TPH

Ainda dentro dos tipos de depressão, existem aqueles que não acontecem em ciclos, como os bipolares e monopolares, mas que são constantes, persistentes. São os chamados Transtornos Persistentes de Humor. O nome refere-se à característica própria deste tipo de doença, ou seja, o humor do paciente é moderadamente alterado, o tempo todo.

A diferença básica entre os bipolares (incluindo os monopolares) e os persistentes é que o primeiro se apresenta em rompantes, fases extremas de depressão ou euforia, intercaladas com períodos de bem-estar. Já no caso dos persistentes, a depressão é relativamente morna, leve, mas constante. Quando acontece em ciclos, ainda assim se difere dos demais porque se trata de uma alteração bem mais leve, porém bastante distinta da normalidade.

Outra diferença é que no caso dos persistentes, o transtorno pode ocorrer durante praticamente toda a vida do paciente, sendo que ele já fica caracterizado por um estado de humor depressivo, desanimado e apático.

  1. Distimia e Ciclotimia

O estado de humor persistentemente depressivo é chamado de Distimia ou Distímico. E quando se repete em ciclos, sempre constantes, é chamado de Ciclotimia ou Ciclotímico.

Depressão Sintomática

Um outro tipo de depressão, conhecido como Sintomática, é bastante específico e, diferentemente dos tipos já citados, é decorrente de outras doenças, tais como:

  1. Câncer
  2. AIDS
  3. Tuberculose
  4. Alzheimer
  5. Doenças hepáticas crônicas

Os sintomas dessas doenças citadas acima provocam ou propiciam o aparecimento da depressão, haja vista que são doenças graves que consomem as energias do organismo. Embora estas doenças tenham características que dificultam bastante a vida do paciente e, infelizmente, muitas vezes o torna vítima de preconceitos, limitando significativamente sua vida social e fazendo com que ele se sinta sozinho, triste e desanimado, o termo Depressão Sintomática não se refere a estes aspectos e a depressão pode aparecer bem antes do diagnóstico ter sido feito ou mesmo dos primeiros sintomas destas doenças iniciarem.

Comorbidade Depressão e Transtorno de Ansiedade Generalizada (ou Síndrome do Pânico)

O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), também conhecido como Pânico ou Síndrome do Pânico, é uma doença que merece atenção, especialmente porque tem se tornado cada vez mais comum na população em geral e, em especial, entre os moradores das grandes cidades.

O Pânico é uma "super crise de ansiedade", normalmente paralisante e acompanhada de sintomas físicos que acontece sem aviso e sem causa aparente, podendo pegar uma pessoa de surpresa em qualquer situação: dirigindo, trabalhando, em casa ou mesmo dormindo.

A sensação é de morte iminente, mesmo que a pessoa não esteja exposta a nenhum risco real. O mal-estar é tão grande que provoca no indivíduo um medo intenso de que ele possa se repetir, o que leva a mais ansiedade.

Inicialmente, a pessoa tenta correlacionar a crise com algum evento e a tendência geral é a de evitá-lo. Por exemplo: se a crise ocorreu no carro, o paciente procura evitar andar de carro. Porém, com o tempo, as crises passam a ocorrer em inúmeras situações diferentes e a pessoa tende a ter medo de exercer qualquer atividade, até então corriqueira em sua vida.

Tudo se passa como se a pessoa estivesse enfrentando uma situação de emergência, de pânico, apesar de misteriosamente estar levando uma vida tranqüila e sem nenhum fator estressante aparente.
Um círculo vicioso e desesperador

Considerando que as limitações impostas pela doença aos pacientes são crescentes e progressivamente mais severas, a tendência é que surjam sintomas específicos, que os médicos chamam de:

  1. agorafobia: medo intenso de se ver em ambientes abertos ou mesmo de afastar-se de casa;
  2. fobofobia: medo de ter medo.

Em desespero, os pacientes imaginam que possam estar sofrendo de doenças orgânicas, tais como problemas cardíacos ou alterações hormonais, e iniciam uma verdadeira peregrinação de especialista em especialista, passando por uma batelada de exames complexos, até se darem conta de que o problema tem uma causa absolutamente psíquica.

É neste ponto que muito comumente a depressão se sobrepõe à ansiedade. Um círculo vicioso se instala e temos então uma pessoa limitada, angustiada, depressiva e que não consegue se ver livre de crises de ansiedade recorrentes.

Capítulo 3

CAUSAS

A depressão, de modo geral e em princípio, não tem uma causa definida. Pelo contrário, pode ser a conseqüência de um conjunto de fatores, incluindo:

  1. Estresse
  2. Problemas afetivos
  3. Dificuldades emocionais
  4. Problemas financeiros
  5. Perda de uma pessoa querida
  6. Infância complicada, entre muitos outros, incluindo os desconhecidos pelos especialistas e estudiosos.

As exceções às causas genéricas e/ou desconhecidas ficam por conta dos seguintes casos:

- quando a depressão é causada pelo aparecimento de outras doenças, como a depressão sintomática, explicada anteriormente;
- quando é uma reação ao TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada ou Síndrome do Pânico, como é mais conhecida;
- quando se trata de transtorno bipolar (incluindo os monopolares), cuja causa é genética (confira detalhes no box, abaixo);
- quando se trata de depressão pós-parto, sobre a qual falaremos no capítulo XX, na página XX.

No caso dos Transtornos Persistentes de Humor (Distimia e Ciclotimia), embora alguns estudiosos já tenham levantado a hipótese de que sejam causados por fatores genéticos, isso ainda não foi comprovado. Sendo assim, consideram-se causas dos TPH fatores psicológicos, geralmente relacionados à infância.

Causa Genética

Já foi comprovado pelo ‘Projeto Genoma’ que a causa dos transtornos bipolares (incluindo os monopolares) é genética, classificando este tipo de depressão como o único com causa definida.

Ou seja, uma pessoa diagnosticada com transtorno bipolar necessariamente terá, em sua família, alguém que já teve doença bipolar ou TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo – que é uma outra doença psíquica causada pelo mesmo gene, mas quando este tem penetrância variável.

Isto é, quando o gene se expressa plenamente, a pessoa apresenta transtorno bipolar (ou monopolar); e quando não se expressa plenamente, a pessoa apresenta transtorno obsessivo compulsivo.

Por fim, cada caso deverá ser avaliado individual e criteriosamente, para que se evite, a todo custo, o diagnóstico equivocado, já que embora o tratamento seja diferente para cada caso, os sintomas são, muitas vezes, semelhantes.

Capítulo 4

SINTOMAS

A depressão apresenta, de modo geral, um grupo de sintomas, sendo que a maioria deles é comum a todos os tipos. Porém, antes de citarmos os sintomas propriamente ditos, vale dizer que uma das características do transtorno bipolar (incluindo o monopolar) é se apresentar em ciclos, o que poderá ser percebido como um sintoma que ajuda no diagnóstico correto da doença.

Os ciclos dividem os pacientes em subgrupos. São, ao todo, três subgrupos diferentes e cada qual deverá ser identificado pelo médico após cerca de um ano de observação, para que o tratamento possa ser adequado:




  1. Transtorno Bipolar de Ciclagem Típica
  2. Transtorno Bipolar de Ciclagem Rápida
  3. Transtorno Bipolar de Ciclagem Atípica

Observação: Quando o paciente apresentar o transtorno em determinada ciclagem, será sempre assim, a ciclagem é recorrente e não muda.

Ciclos do Transtorno Bipolar

  1. bipolar de ciclagem típica: a oscilação de humor acontece de tempos em tempos, sendo que este intervalo é sempre o mesmo. Por exemplo, de seis em seis meses. Isso equivale dizer que a pessoa fica bem por seis meses (com o humor equilibrado), depois seis meses depressiva, seis meses bem, seis meses maníaca, seis meses bem... e assim por diante, como mostra o gráfico:

 

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  1. bipolar de ciclagem rápida: a oscilação de humor acontece num período de tempo mais curto, geralmente a cada três semanas. Neste caso, o intervalo também é sempre o mesmo; ou seja, a pessoa fica bem durante duas ou três semanas (com o humor equilibrado), depois duas ou três semanas depressiva, duas ou três semanas bem, duas ou três semanas maníaca, duas ou três semanas bem... e assim por diante, como mostra o gráfico:

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  1. bipolar de ciclagem atípica: a oscilação de humor acontece num período de tempo indeterminado e desconhecido. Às vezes, o paciente fica bem durante um bom tempo, daí deprime, fica maníaco, fica bem de novo, sem obedecer a um ritmo ou ordem específico, como mostra o gráfico:

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Por conta desta característica (ciclagem), o transtorno bipolar só pode ser diagnosticado com precisão depois de cerca de um ano de observação médica especializada. Caso contrário, como vem acontecendo recorrentemente, muitos diagnósticos errados podem ser dados, acarretando sérios danos de saúde física e mental ao paciente e retardando a cura de seu verdadeiro problema.

Humor constantemente depressivo

Além dos ciclos do transtorno bipolar, devemos agora citar os sintomas próprios da depressão, considerando as particularidades de cada transtorno. Em princípio, podemos dizer que qualquer depressão é caracterizada por um sintoma recorrente: humor constantemente depressivo, triste.

Porém, é importante lembrar que aqui não estamos falando de uma tristeza aparente, daquela que todos nós sentimos algumas vezes, tendo ou não um motivo que a justifique ou que seja concreto. No caso da depressão como doença trata-se de uma tristeza mais profunda, que torna melancólicos o olhar, as ações e a forma como a pessoa vive durante dias, meses e até anos... Dependendo da intensidade do transtorno e do tratamento a que ela se submete, ou não. Enfim, estamos falando de um estado básico entristecido.

Para esclarecer melhor o que representa alguns dos termos citados acima, referentes ao estado do depressivo, confira:

Humor – é o pano de fundo, o jeito de ser da pessoa, o modo como ela se expressa nas diferentes situações vividas no seu dia-a-dia. O humor pode se mostrar alterado dependendo da circunstância experimentada.

Sentimento – é interno, pessoal, para dentro. É o que a pessoa sente e nem sempre expressa. O sentimento pode ser camuflado, mascarado, maquiado; é a pessoa quem decide se vai expressá-lo através de emoções ou não.

Emoção – é a expressão do sentimento. Algumas pessoas são emotivas e deixam transparecer o que sentem, enquanto outras são ‘fechadas’, introspectivas, e não demonstram seus sentimentos facilmente. São pessoas conhecidas como ‘frias’, ou seja, que agem sem emoção, o que evidentemente não significa que não tenham sentimentos.

Os sintomas mais comuns:

- Insônia ou excesso de sono: o ritmo do sono da pessoa fica alterado e isso pode ser percebido facilmente, pois causa mudanças em vários outros ritmos cotidianos da vida dela.

- Falta de apetite: geralmente a pessoa perde peso, fica com a imunidade do organismo baixa, comprometida.

- Diminuição da libido: a pessoa não sente vontade de se relacionar sexualmente, de interagir e trocar afeto.

- Falta de ânimo, entusiasmo e energia: tudo se torna mais difícil, mais cansativo, menos interessante; a pessoa perde a vontade de sair com os amigos, de viajar ou praticar qualquer atividade física.

- Vontade de se isolar: desejo de ficar sozinha, sem conversar ou contar sobre sua vida, ainda que seja para os amigos em quem, antes, a mesma pessoa confiava.

- Pensamentos de ruína, de que tudo vai dar errado: idéias pessimistas, sensação de fracasso, de incapacidade. Aqui, a auto-estima está sempre afetada.

- Sentimento de que a vida é sem graça, de que não vale a pena viver: os dias ficam como que sem propósito, sem perspectiva. A pessoa não tem criatividade ou vontade para fazer planos.

- Tendência ao mutismo (falar cada vez menos): a pessoa vai se isolando, tornando-se cada vez mais introspectiva.

- Crises de choro ou estado constantemente choroso (com olhos marejados): rompantes de lágrimas ou extrema facilidade para chorar, seja diante de um filme, de uma conversa ou por nenhuma razão aparente.

- Falta de vontade generalizada: enxerga a vida em ‘preto e branco’, sem cor, sem brilho, sem motivação.

Capítulo 5

TRATAMENTO

O tratamento será prescrito de acordo com o diagnóstico e as particularidades de cada caso. Daí se justifica a enorme importância da competência médica e da confiança que o paciente (ou seus familiares ou cuidadores) sente em relação ao que ele diz e prescreve.

Reação depressiva breve
Quando se trata da reação depressiva breve, por exemplo, geralmente a medicação alopática é desnecessária, podendo ser sugerido um tratamento psicológico e/ou alternativo, conforme a indicação do médico em conjunto com a preferência do próprio paciente.

Reação depressiva prolongada
Porém, quando a reação depressiva é prolongada, o médico prescreverá, certamente, um antidepressivo do tipo ‘inibidor seletivo de recaptação de serotonina’, compatível com os sintomas percebidos por ele e relatados pelo paciente.

O ideal é que, já durante o período de tratamento medicamentoso, a pessoa busque também ajuda psicológica, a fim de compreender porque se sente paralisada diante de sua dor, sem conseguir reagir de forma positiva com o passar do tempo.

Essa ação combinada irá garantir maior eficácia do tratamento, especialmente quando a medicação alopática for suspensa, já que o paciente terá aprendido a lidar melhor com seus sentimentos.

Transtorno Afetivo Bipolar (ou Monopolar)
Assim que diagnosticado o transtorno bipolar, depois de cerca de um ano de observação do comportamento do paciente (oscilação grave e recorrente de humor), o psiquiatra deverá prescrever a medicação própria para este tipo de doença, que é quase sempre à base de sais de Lítio, associados ou não a outras medicações.

O Lítio é um elemento químico estabilizador do humor muito eficiente. Sua função é impedir que o paciente entre no ciclo de oscilação, característico deste transtorno. Por isso, pessoas com transtorno bipolar deverão tomar remédio para o resto de suas vidas.

Porém, o Lítio é um componente que causa vários efeitos colaterais, devendo, portanto, ser prescrito com bastante cuidado e na dose ajustada caso a caso. Esta dosagem será indicada somente a partir da realização de exames específicos que irão demonstrar a dinâmica do organismo do paciente. É bom ainda lembrar que as quantidades normais de Lítio no sangue de uma pessoa que não usa este tipo de medicação são sempre ínfimas e a ausência deste mineral em exame de sangue, não constitui diagnóstico de depressão ou tendência a ela: este é um raciocínio completamente equivocado.

Quando o paciente estiver deprimido, a medicação deverá ser associada com antidepressivo do tipo tricíclico, que amenizará os sintomas da depressão e o ajudará a recuperar o ânimo; e quando estiver eufórico (maníaco), a medicação deverá ser associada com um neuroléptico, que age de forma psicotrópica, com efeitos sedativos e psicomotores, evitando que o paciente tenha surtos psicóticos (alucinações e/ou atitudes agressivas).

Importante: Aqui também vale lembrar que a associação do Lítio com um neuroléptico chamado Haloperidol pode ser muito perigosa e deve ser evitada por aumentar muito os riscos de neurotoxidade (lesão neurológica irreversível). Para a associação com o Lítio, prefere-se sempre neurolépticos da família das Butirofenonas. (veja box sobre os Danos causados pelo uso indevido do Lítio).

O acompanhamento com o psiquiatra é fundamental e deverá ser constante, a fim de que a dose de lítio seja reavaliada de tempos em tempos e ajustada, caso seja necessário.

Danos causados pelo uso indevido do Lítio

Deve-se tomar extremos cuidado com diagnóstico errado! O consumo em doses equivocadas do Lítio pode causar vários e graves danos ao organismo, tais como:

- nefrotoxicidade – intoxicação dos rins
- neurotoxicidade – intoxicação do sistema neurológico
- tireotoxicidade - intoxicação da tireóide
- anemia aplástica - inibição da medula óssea

Distimia ou Ciclotimia
Este tipo de depressão, embora tenha sintomas mais moderados – como já dissemos anteriormente – apresenta uma característica que torna o tratamento mais delicado: por não necessariamente requerer prescrição de medicamento halopático e não costuma responder bem a medicação antidepressiva.  Há sim, ao nosso ver, a indicação de psicoterapia para que se possa identificar as causas (internas e pessoais) que conduzem a pessoa a este estado depressivo de humor. Os resultados são bem mais demorados, com ou sem o uso de medicação, e dependem sobretudo da motivação e da decisão do paciente.

O problema, contudo, é que pacientes distímicos ou ciclotímicos geralmente se tornam tão apáticos que não encontram motivação para buscar ajuda. Ao receberem sugestões para procurar tratamento, não têm força interna e terminam desistindo, permanecendo ‘acomodados’ em seu mundo solitário e sem cor.

Portanto, são os familiares e amigos que mais percebem os sintomas e, muitas vezes, sentem-se impotentes e frustrados diante da tentativa fracassada de ajudar a reverter este quadro que resulta em tristeza para todos ao redor do distímico ou ciclotímico.

Acontece que somente o paciente pode fazer esta escolha. Conversar, sugerir e tentar se mostrar sempre companheiro são maneiras positivas de ajudar, mas a decisão de buscar ajuda tem de ser dele, sempre! E esta decisão é algo absolutamente particular, não podendo ser transferida ou ‘obrigada’ por ninguém além dele mesmo.

Depressão sintomática
O tratamento deste tipo de depressão fica absolutamente vinculado ao tratamento da doença original, ou seja, do problema que provocou o aparecimento da depressão.

Ao se combater eficazmente a doença física (seja AIDS, Câncer, Hepatite, Alzheimer, entre outras já citadas), a tendência é que a depressão desapareça, porém o uso de antidepressivos por vezes é imperioso, uma vez que estas depressões tendem a ser graves.

Em todo caso, apesar das causas aqui não serem nem de longe psíquicas e sim claramente orgânicas, é importante que a equipe médica indique o acompanhamento de um psicólogo assim que os sintomas da depressão surgirem, já que realmente não é nada fácil lidar com as conseqüências de uma doença grave e todas as alterações que elas provocam na rotina de vida do paciente e o que se iniciou como depressão sintomática, pode facilmente, num segundo momento, passar a ser reação depressiva.

Comorbidade Depressão e Transtorno de Ansiedade Generalizada (ou Síndrome do Pânico)
O tratamento será prescrito a partir de um diagnóstico que deve ser detalhado e preciso. O psiquiatra investiga, para tanto, se existe a presença de outros transtornos associados, até descobrir o motivo principal que levou o paciente a procurar ajuda.

Após ser definido o diagnóstico, o profissional prescreve tratamento considerando alguns fatores:

- presença ou não de outras doenças associadas;
- gravidade, intensidade e comprometimento do transtorno;
- tempo de acometimento (quando surgiram os sintomas);
- fatores psicológicos que deverão ser avaliados em consulta clínica.

Normalmente são indicados antidepressivos do tipo inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS). Estes remédios têm ação específica e muito eficiente contra as crises de ansiedade, mas demoram de quinze a vinte dias para fazer efeito e devem ser usados por períodos que variam entre o mínimo de seis meses até cerca de dois anos ou mais, dependendo do caso.

O equilíbrio é recuperado, geralmente, em torno de doze semanas, quando há boa adaptação ao tratamento medicamentoso. O objetivo é reconduzir o paciente, dia a dia, a uma vida produtiva e adaptada ao meio em que vive, até que a cura seja completa. Neste processo, muitas vezes o uso concomitante de outras medicações em associação se faz necessário, como ansiolíticos e estabilizadores de humor.

De qualquer forma, é unânime entre os psiquiatras que o controle eficaz do pânico e, portanto, da depressão decorrente deste transtorno somente é possível com a associação do tratamento psicoterápico. É a partir desta combinação que o paciente terá a chance de identificar os fatores emocionais inconscientes que o levaram às crises recorrentes, podendo resolver de vez as causas da doença.

Capítulo 6

CUIDADOS E HÁBITOS SAUDÁVEIS

A depressão, seja de qualquer tipo, muito geralmente, não é percebida pela pessoa acometida. O mais comum é que a pessoa considere seus sentimentos como uma tristeza um pouco mais demorada de passar ou uma irritação mais acentuada. Ou ainda, há aqueles que, por se sentirem desanimados, sem vontade e sem energia, apostem que estão com fraqueza, anemia ou estafa.

Por isso, alguns cuidados precisam ser tomados, inclusive pela família, pelos amigos e por aqueles mais próximos de uma vítima dos sintomas da depressão, a fim de que o diagnóstico correto e o tratamento adequado possam acontecer o quanto antes, evitando conseqüências mais graves.

Além disso, hábitos saudáveis podem evitar o aparecimento ou o agravamento da depressão e, portanto, devem ser praticados por todos nós, diariamente ou sempre que possível. Veja as dicas a seguir!

Pessoas que moram sozinhas
Pessoas que moram sozinhas correm mais risco de ficarem depressivas, já que dificilmente alguém vai conseguir lhes apontar suas mudanças de comportamento; ou seja, não haverá um parceiro ou familiar que conviva com elas diariamente para lhes avisar que elas andam tristes demais, desanimadas demais, estranhas, comportando-se de modo diferente de antes. Assim, a procura por um psiquiatra ou psicólogo pode demorar muito a acontecer, agravando os sintomas. Aqui, então, a dica vale tanto para pessoas que moram sozinhas como para quem tem amigos e parentes que morem sozinhos. Vale ficar atento às mudanças de atitudes, falando, conversando, expondo sentimentos e percepções. Muitas vezes, um apontamento feito com carinho e respeito pode fazer toda a diferença para quem está se sentindo depressivo.

Permitir-se ficar triste
Hoje em dia, existe uma tendência muito grande de se condenar a tristeza, como se este fosse um sentimento próprio das pessoas fracassadas, mal-sucedidas e incapazes. Mas isso não é verdade, em hipótese alguma. A tristeza é um sentimento humano como outro qualquer e quando a gente se permite ficar triste, chorar, vivenciar a melancolia, fica bem mais fácil superá-la. O mais importante é saber que o objetivo não é se afundar em dores e se auto-destruir; muito pelo contrário, a idéia e absorver da tristeza o aprendizado que ela pode nos trazer e, por fim, sabermos que a permissão para ficar triste, com ou sem causa conhecida, favorece o amadurecimento e a conquista de um comportamento mais integrado, criativo e produtivo.

Evitar cobranças incoerentes com os sentimentos aflorados
Muitas pessoas, especialmente os amigos de alguém com sintomas da depressão, costumam acreditar que incentivos e cobranças como ‘Reaja! Não se entregue à tristeza’, ou ‘Vamos sair, nos divertir e esquecer os problemas!’, ou ainda ‘O seu problema é que você não sai de casa. Vamos à uma festa, beijar na boca e dar risada que isso vai passar!’ são eficientes. Na verdade, pressões e cobranças desse tipo, absolutamente incoerentes com os sentimentos da pessoa com depressão, servem somente para deixá-las ainda piores, com a sensação de que a solução é muito simples e mesmo assim elas não conseguem se sentir melhores. O fato é que depressão não se cura com piadas, baladas, beijo na boca e, muito menos ainda, com o consumo de bebidas alcoólicas, cigarro ou qualquer outro tipo de entorpecente. O único modo de melhorar é se conscientizar de seus sentimentos e procurar ajuda especializada, específica e focada, sem ficar lutando contra si mesmo.

Atividades físicas liberam antidepressivos naturais
Que a prática de exercícios físicos é extremamente benéfica para a saúde, todos nós já sabemos. Aqui, o intuito é reforçar o fato de que, ao instituirmos como parte da rotina uma atividade física – três vezes por semana, durante uma hora por dia, começando com aquecimento e terminando com alongamento – conseguimos aumentar os níveis cerebrais de substâncIas como as endorfinas, que são um antidepressivo natural; deste modo, é possível tanto evitar o aparecimentos dos sintomas da doença quanto amenizá-los, contribuindo para a cura nos casos de reação depressiva breve e prolongada, por exemplo. Algumas das atividades físicas mais indicadas para pessoas com depressão ou predisposição à doença são yôga, natação, caminhada, dança, artes marciais, entre outras que sejam de sua preferência.

Contato com a natureza restabelece o equilíbrio
Temos estado tão envolvidos com as pressões das grandes cidades que, muitas vezes, esquecemos da importância do contato com a natureza, seja passear num parque, tomar um banho de cachoeira, olhar o mar, pisar descalço sobre a terra, entre outras atitudes simples e acessíveis. Observar as formas, sentir os aromas, interagir com as diferentes sensações que a natureza pode nos provocar são maneiras extremamente benéficas de restaurar o equilíbrio de todos os níveis do ser. O contato com as cores vibrantes da natureza e com a claridade e a luminosidade do Sol, por exemplo, é um estímulo ao bem-estar e à alegria genuína. Nos países em que o inverno é muito prolongado e escuro, o índice de pessoas com depressão aumenta significativamente. O ideal é que cada pessoa reconheça sua preferência: praia, montanha / frio, calor / água doce, água salgada, e assim possa desfrutar mais das belezas que o Universo nos oferece.

Reconhecer seu ritmo interno e respeitar seus limites
Dentro desta dica, muitas ações estão incluídas, já que muitas pessoas sequer param para pensar em seu ritmo, na intensidade com que suportam agir em determinadas situações sem que ultrapassem seus limites. Por exemplo:
- não trabalhar mais do que seu corpo agüenta;
- não dormir menos do que seu organismo precisa;
- alimentar-se adequadamente, em horários regulares e de forma saudável;
- observar seus sentimentos e respeita-los ou ao menos agir conscientemente toda vez que se sentir no dever de fazer algo mesmo contra sua vontade, entre outros.

Muito cuidado com o excesso de ‘culpas’
Algumas pessoas alimentam culpas internas sem se darem conta da pressão terrível que fazem contra si mesmas. Esse sentimento é capaz de destruir as defesas de nosso organismo, tornando-o frágil e predisposto às doenças físicas e psíquicas. Veja quais são as culpas mais recorrentes:
- escolha profissional;
- onde e com que morar;
- opção religiosa;
- orientação sexual;
- manter relacionamentos difíceis e limitantes.

Cuidados específicos para pessoas com depressão
- fazer o acompanhamento com um psiquiatra;
- respeitar as orientações à risca (dosagem dos medicamentos, posologia, período de retorno e exames);
- buscar ajuda com um psicoterapeuta.

 

CONCLUSÃO
Uma visão ampliada do ser humano...

Imaginemos inicialmente a vida de uma pessoa comum há cerca de dois ou três séculos: o indivíduo vivia em regiões tranqüilas e isoladas, longe dos grandes centros urbanos e tinha a possibilidade de conviver diariamente com seus familiares, num ambiente de constantes trocas afetivas e ajuda mútua.

Havia também a possibilidade de exercícios físicos como parte indissociada de sua rotina, como por exemplo para cortar lenha, cuidar de seus animais domésticos e de sua moradia, sem que pudesse contar com grandes facilidades tecnológicas para auxiliá-lo nestas tarefas. O próprio trabalho rural dele era fator responsável por sua integração com a Natureza.

A Espiritualidade, seja de quaisquer origens, era a linha mestra na vida das pessoas e da sociedade. O acesso à informação era absolutamente restrito e ineficaz, o que obrigava o indivíduo a ignorar os acontecimentos que não estavam rigorosamente ligados à sua vida pessoal e da pequena comunidade a que pertencia.

Podemos dizer que nosso sistema emocional está bem melhor preparado para este tipo de vida – fisicamente dinâmica, afetivamente eficiente e compartilhada através de relações baseadas em respeito e confiança – do que para o tipo de vida que temos levado atualmente!

Nosso sistema cognitivo consegue dar conta de informações catastróficas como um terremoto no Japão, um atentado terrorista nos Estados Unidos ou um bombardeio no Oriente Médio, mas nos esquecemos de que também precisaríamos estar prontos para assimilar e digerir toda a carga emocional que cada uma destas notícias nos trazem.

Somada a este constante bombardeio de informações, está também a pressão imposta pelos meios de comunicação e pelo sistema capitalista de consumismo: temos de ter o tal carro do ano, temos de usar a tal roupa de grife e temos de dar a nossos filhos o tal brinquedo eletrônico e computadorizado que ele viu na TV; só que raramente nossa conta bancária acompanha tantas ‘exigências’ e tantas ‘necessidades’ criadas pela vida moderna.

Para piorar, muitas vezes não conseguimos ter o controle de nossas atividades diárias: normalmente exigem de nós a realização de mais tarefas do que seria possível nas vinte e quatro horas de um dia. Nos únicos momentos de relaxamento e descontração, dedicamo-nos a receber mais informações cognitivo-emocionais conflitantes, quando nos expomos a um filme de ação cheio de violência e terror ou simplesmente nos anestesiamos com substâncias entorpecentes (álcool, fumo, alimentos não-naturais, entre outros).

O contato interpessoal, vital para a saúde afetiva de todos nós, tem se tornado cada vez mais raro e de baixíssima qualidade, permeado por estresse e ansiedade. O contato frutífero com o inconsciente através de atividades criativas e artísticas ou através dos sonhos e das estórias mitológicas e folclóricas perdeu-se em meio à confusão da modernidade.

O exercício físico somente é possível mediante compromissos agendados em academias, que acabam trazendo mais informações desnecessárias e mais exigências impostas pela sociedade de consumo.

Vistos sob este prisma, os transtornos tratados neste livro, parecem-me doenças fadadas a acometer um número cada vez maior de pessoas, não?

Portanto, é bom que comecemos a perceber e agir de modo coerente com o fato de cada um de nós consegue lidar com uma determinada quantidade de estresse; cada um de nós tem seu próprio limite. Ao ultrapassar este limiar, nosso cérebro está programado, desde os mais remotos tempos, para detonar sinais de alerta e declarar, à revelia da consciência, que estamos submetidos a uma situação emergencial, quando devemos lançar mão de mecanismos que possam garantir nossa sobrevivência. Este alerta pode ser qualquer doença física ou psíquica, mas comumente é o pânico e muitas vezes surge também a depressão.

Ou aprenderemos a respeitar nossos limites e agir conforme nossas possibilidades, tanto físicas quanto emocionais e afetivas, buscando informações adequadas para esse aprendizado e ajuda especializada com um psiquiatra, um psicólogo, e também através de caminhos alternativos que estejam de acordo com nossas crenças... ou a depressão será um risco inevitável.

Capítulo 7

DEPRESSÃO PÓS-PARTO: UM CASO A PARTE

Por se tratar de um tipo de depressão completamente diferente de todos os outros já citados, deixamos para falar deste caso num capítulo à parte. A depressão pós-parto é um distúrbio grave e de causa estritamente orgânica, já que se trata de um desequilíbrio hormonal e não tem, num primeiro momento, relação alguma com causas psicológicas.

Aqui, as exceções ficam por conta dos casos em que a mulher já apresentava tendência ao comportamento depressivo ou sofria de TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) antes de engravidar. Sendo assim, os sintomas, as causas e o tratamento para situações pontuais como essas já foram citados anteriormente e a única diferença – extremamente importante! – é que o médico deverá ser avisado sobre a gravidez o mais rapidamete possível, para que o tratamento possa ser adequado sem que haja danos ao bebê e à mãe.

Como agem os hormônios femininos

Normalmente, os hormônios que agem no organismo da mulher, a partir dos ovários, são:
- estrógeno
- progesterona

Quando a mulher engravida, a progesterona se torna o principal atuante; até por isso é que o hormônio se chama ‘progesta’, ou seja: “o que leva à gestação”. Porém, durante o parto, um terceiro hormônio entra em ação: a ocitocina, produzida pela hipófise.

A ocitocina é responsável por:
- fazer a contração do útero e propiciar o nascimento do bebê;
- fazer a contração das mamas a fim de ejetar o colostro e o leite, possibilitando a amamentação.

Quando a produção de progesterona ao longo da gravidez acontece de forma normal, ela equilibrará os efeitos psíquicos da ocitocina e a mulher não sofrerá de depressão pós-parto. No entanto, quando os ovários produzem níveis de progesterona abaixo do esperado, ocorrerá um desequilíbrio hormonal especialmente a partir do momento do parto, quando a ocitocina é liberada em maiores quantidades e se manterá em níveis elevados devidos à amamentação.

Os efeitos da psíquicos da ocitocina

Em quantidades maiores que a progesterona, a ocitocina provoca na mulher sensações de rejeição à gravidez e, posteriormente ao parto, também ao bebê, o que faz com que a mãe se sinta culpada, como se fosse má, desumana ou desmerecedora de ter um filho.

A partir destas percepções, que geram sentimentos extremamente desagradáveis, tensos e tristes, a mulher começa a se sentir cada vez mais melancólica e termina depressiva sem que nada possa fazer para cessar essa sensação de rejeição, a pouca vontade que sente de ficar perto do bebê, de amamentá-lo ou cuidar dele.

Acontece que mudar este sentimento não depende de vontade, consciência ou amor e sim, exclusivamente, de interromper a produção de ocitocina e medicar a mulher com antidepressivos, a fim de recuperar o equilíbrio hormonal de seu organismo. Veja mais no subitem ‘Tratamento’, deste capítulo.

Esse desequilíbrio pode ocorrer com todas as mamíferas, tanto que é comum presenciarmos ou ouvirmos falar de cadelas, gatas ou outras fêmeas que devoram seus filhotes assim que nascem. Este desequilíbrio hormonal em animais é causado por baixa produção de progesterona pelos ovários, tal como em mulheres. Esta baixa produção está ligada ao uso de anticoncepcionais nos animais domésticos, à demora prolongada para a primeira gestação, a condições ambientais adversas que ameacem a sobrevivência dos filhotes e algumas vezes, é simplesmente uma tendência genética da fêmea em questão.

Por que os ovários podem produzir menos progesterona do que o esperado?

Nas mulheres, a fisiologia hormonal não é muito diferente: algumas mulheres apresentam o que chamamos de ‘ovários pouco eficazes’ o que resulta em baixa produção de progesterona. Os motivos que tornam os ovários pouco eficientes são:

- uso prolongado de anticoncepcional hormonal – muitas mulher usam este tipo de anticoncepcional por muitos anos ininterruptamente e a função básica é inibir a produção de hormônio pelos ovários, a partir da introdução de altos níveis de hormônio exógeno ( “pílula”, implantes intra-dérmicos e DIU – dispositivo intra-uterinos - com liberação de hormônio).

- ovários micropolicísticos – pequenos folículos (cistos) que se desenvolvem nos ovários justamente por deficiência na produção de hormônio. O tratamento comumente é feito com o uso de anticoncepcional hormonal, prolongando o uso deste medicamento, ocorre como citado no item anterior, com o agravante dos ovários em questão já serem previamente pouco produtivos.

Quando há a interrupção do uso de hormônio, os ovários se vêem ‘obrigados’ a produzirem altos níveis de progesterona, mas ainda assim, o resultado fica abaixo do alcançado por ovários de mulheres que não tomaram anticoncepcionais hormonais ou tomaram durante um período mais curto.

A produção de progesterona levará cerca de seis meses para recuperar seus níveis normais. Se a mulher engravidar antes que isso aconteça, haverá grandes chances de ocorrer o desequilíbrio citado acima, devido à produção de ocitocina ser, neste caso, maior que a de progesterona. Deste modo, a tendência para que ela sinta rejeição a esta gravidez e/ou ao bebê será maior.

Alguns sintomas (que atuam no inconsciente) evidenciam a depressão pós-parto:

- rejeição à gravidez – ela tenta esconder a gestação usando roupas apertadas, ignorando seu estado, comportando-se como se não estivesse grávida;
- parto em casa – se a mulher tiver essa chance, preferirá ter o bebê em casa até para que não precise mostrar a criança e expor sua condição de mãe. Lembrando que o sentimento dela é de rejeição a todo este quadro gestacional, ela vai tentar de tudo para não entrar em contato com as rotinas próprias do nascimento do bebê.
- quando ela ouve o bebê chorar, querendo mamar, seu cérebro automaticamente libera a ocitocina, o que reforça seu sentimento de rejeição, e ela entra num conflito muito difícil entre raiva e culpa;
- enquanto depressiva, é comum a mulher achar que o bebê parou de respirar ou que tem uma doença grave; pensamentos deste tipo demonstram essa mistura entre culpa e desejo de ficar longe dele.

Tipos de depressão pós-parto

A depressão pós-parto pode acontecer em dois níveis de gravidade:

  1. Psicose puerperal (gravíssima) – acomete a mulher durante os sete primeiros dias após o parto. O desequilíbrio entre a progesterona e a ocitocina é tão grande que ela fica psicótica, ou seja, completamente fora de si. Nestes casos, é comum a mãe estrangular o bebê ou usar outro meio para matar seu filho ou ainda simplesmente abandoná-lo.
  1. Depressão pós-parto (grave) – é o tipo mais comum e acomete a mulher, geralmente, a partir da segunda semana após o parto. O desequilíbrio entre progesterona e ocitocina, neste caso, não é tão acentuado e a intensidade dos sintomas são mais brandos do que no caso da psicose puerperal. Entretanto, ainda assim trata-se de uma doença grave e que precisa ser tratada o quanto antes, pois coloca em risco a saúde física e psíquica tanto da mãe quanto do bebê.

É importante ressaltar que a mulher com psicose puerperal se encontra completamente sem condições de avaliar o que está fazendo e isso pode ser notado a partir de alguns comportamentos bastante estranhos, como citamos anteriormente, bem distintos dos tidos por uma mulher cujos níveis hormonais estejam equilibrados.

Tratamento

Assim que a própria mulher ou, o que é mais provável, alguém da família ou de seu convívio diário notar algum comportamento estranho, tal qual tristeza, irritação, melancolia e atitudes para evitar o contato com o bebê ou ainda irritação ao fazê-lo, é importante procurar ajuda médica o quanto antes.

Muitas vezes, o ginecologista que acompanha a mãe ou o pediatra que acompanha a crinça pode não se aperceber da condição patológica presente e forçar para que ela não pare de amamentar o bebê, ressaltando a importância do leite e do contato no desenvolvimento dele. Entretanto, nestes casos, continuar a amamentação é sinônimo de agravamento da depressão.

Quando houver dificuldade para que este ato aconteça de forma espontânea, natural e agradável, o ideal é se permitir uma consulta com um psiquiatra, onde a mãe poderá falar de seus sentimentos e, conduzida por ele, compreender melhor o que está acontecendo.

Uma vez diagnosticada a depressão pós-parto, alguns passos deverão ser rigorosamente seguidos para que se possa evitar conseqüências mais drásticas, como por exemplo o suicídio da mãe, em alguns casos extremos.

O que fazer:

- interromper imediatamente a amamentação, com orientação médica, para que seja interrompida também a produção de ocitocina pela hipófise;
- iniciar a medicação prescrita pelo psiquiatra o quanto antes. Geralmente, serão indicadas altas doses de antidepressivo tricíclico, a fim de que o sofrimento possa ser amenizado rapidamente, já que a angústia e a aflição de uma mulher com depressão pós-parto são realmente profundos;
- manter, se possível, o bebê distante da mãe, por aproximadamente 15 dias, que é o tempo necessário para que a medicação antidepressiva faça efeito e ela se sinta tranqüila e equilibrada novamente.

Depois de cerca de 15 dias com o uso adequado de medicação, é muito provável que ela já se sinta pronta para exercer seu papel de mãe de forma muito afetuosa. E todos – mãe, bebê, companheiro e familiares – sentem-se retomando o grande sonho da maternidade. Afinal, um bebê é sempre motivo de grandes alegrias.


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