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Retomando estas palavras de Nicolas Berdiaeff, Aldous Huxley abre seu mais conhecido romance: "Admirável Mundo Novo". Quem leu este livro, certamente anda se assustando com os rumos que a medicina atual tem tomado. Os meios de comunicação têm dado grande destaque aos avanços da medicina em áreas da genética humana que acabam por incluir, por exemplo, o implante uterino de embriões fecundados in vitro e a clonagem de embriões humanos. Ouve-se muito sobre a engenharia genética, sobre o Projeto Genoma que conseguiu um mapeamento completo de todas as informações genéticas que os cromossomos humanos contém e sobre a manipulação artificial deste código genético. Estas idéias são muito discutíveis e é necessário que todos se questionem sobre os valores atualmente adotados pelas artes médicas e sobre os rumos que a medicina poderá seguir. Na prática, os pacientes hoje se vêem às voltas com inúmeros e sofisticados exames, nem sempre não invasivos, e com medicamentos de última geração, caríssimos via de regra, que não podem garantir um bom resultado e a ausência de efeitos colaterais indesejáveis. O sistema de medicina de grupo e os convênios médicos obrigam cada vez que os profissionais de saúde restrinjam o tempo dispensado aos seus pacientes, oferecendo um atendimento médico impessoal, frio e algumas vezes equivocado. Por todos estes motivos, cada vez mais pessoas se voltam para tratamentos alternativos, obtendo resultados tão variáveis quanto são as opções que se apresentam. A Medicina Antroposófica é uma destas medicinas alternativas e aqui estamos nos dispondo a falar um pouco sobre ela.
A
Palavra "antroposofia" tem origem no Grego e significa "sabedoria
a respeito do Ser Humano", ou "sabedoria humana". Seu impulso
original foi elaborado no princípio do século XX pelo filósofo
austríaco Rudolf Steiner, como tentativa de satisfação
à ânsia por conhecimento que marca o Ser Humano contemporâneo
e como uma alternativas às frias respostas oferecidas pela ciência
materialista atual. Baseando-se no método pesquisa por observação
e na visão de mundo desenvolvidos por Johann W. Von Goethe, Steiner
aprimorou o que se tornou conhecido por "Método Goetheanístico",
o que na verdade se traduz por um método investigativo alternativo
ao Método Científico, visão ortodoxa embasada nas
idéias de René Descartes e Galileu Galilei. Desta forma,
desde seu nascimento, a Antroposofia recusa-se por um lado a se embasar
em crenças religiosas, dogmáticas, supersticiosas ou místicas
e, por outro, a se conformar com uma visão materialista e morta
da realidade, em que o Ser Humano não consegue se encontrar totalmente.
Sendo
assim, Steiner resgatou através do Método Goetheanístico
todo o conhecimento acumulado ao longo da História da Humanidade
e tão desprezado por Descartes. Isto se deu como fruto dos contatos
entre Steiner e Helena Petrovna Blavatski, pensadora russa que fundou
a Teosofia a partir da união das antigas sabedorias indiana, egípcia
e grega. A releitura que Steiner fez da Teosofia, obrigou-o a trocar o
enfoque do pensamento especulativo teosófico, deslocando-o desde
os deuses e seus mistérios, até fazê-lo encontrar
o Ser Humano como objeto de seu estudo e enquadrar-se no pensamento investigativo
de Goethe. Sendo assim, apareceu a necessidade filosófica imperiosa
de que para todo conhecimento adquirido existisse uma aplicação
prática a ele imediata e que se revelasse como benefício
direto para a Humanidade como um todo e para o Ser Humano individual.
Apareceram então, com a colaboração de diversas pessoas de todo o mundo, várias especialidades antroposóficas, tais como a Pedagogia Waldorf (método de ensino antroposófico), a Medicina Antroposófica, a Farmacêutica Antroposófica, baseada na Homeopatia Hannemaniana e na Fitoterapia, a Agricultura Biodinâmica, a Pedagogia Social (método de organização e administração de empresas e de recursos humanos antroposófico), a Engenharia Antroposófica, a Arquitetura Antroposófica, fundamentada na visão de Gaudi, as Artes Antroposóficas (Música, Dança, Pintura, Escultura, Teatro, etc) e até mesmo, mais recentemente, a Psicologia Espiritual. Apareceram também práticas e técnicas tipicamente antroposóficas, aplicadas para diversos fins, do curativo ao pedagógico, passando logicamente pelo artístico. Dentre elas temos a Euritmia (a "dança" antroposófica aplicada), a Fonoplasia (a arte da fala aplicada), a Terapia Artística (artes plásticas aplicadas), a Quirofonética (movimentos do sons aplicados), a Massagem Rítmica, o Canto Werbecke e tantas outras. Tudo isto demonstra claramente que a Antroposofia não se atém ao plano teórico, mas liga-se intimamente à realidade do mundo, contribuindo com suas descobertas para uma vida humana mais íntegra.
Resumidamente a Antroposofia é então um núcleo filosófico central ao redor do qual gravitam as ciências espirituais e as técnicas antroposóficas que ampliam os conhecimentos adquiridos através das ciências e técnicas convencionais, em nada sendo a estas contraditório ou excludente. Ora, a Antroposofia procura atender às necessidades do Ser Humano sem incorrer em unilateralidades: sua raiz fundamental é o holicismo. Parte do fato de que a capacidade cognitiva do Ser Humano pode ser elevada da pura percepção sensorial e do pensar linear a estados superiores de conhecimento e consciência, transformando não a prática, mas o "olhar" que se dirige ao mundo, num sentido de torná-lo mais propriamente humano, vivo, criativo e artístico, libertando-o de materialismos, simplificações, sectarismos e superstições. Em Antroposofia não se renuncia nunca à lucidez da razão e se procura sempre o conhecimento da essência superior que permeia e transcende o mundo meramente sensível. É exatamente por essa razão que o antropósofo deve "viver" a Antroposofia e não apenas "utilizar-se de meios antroposóficos".
A
Medicina Antroposófica surgiu no início deste século
com o trabalho da Dra. Ita Wegman e de seus colaboradores, a partir do
impulso dado por Rudolf Steiner em ciclos de palestras que ocorreram na
Suíça em 1924. Desde então, vem sendo largamente
utilizada na Suíça, Alemanha, Holanda e diversos outros
países, Mas não só na Europa existe a Medicina Antroposófica:
também aqui no Brasil, graças ao esforço pioneiro
da Dra. Gudrun Burckhardt e de seus colaboradores, temos à disposição
desde 1945 a possibilidade de um tratamento antroposófico.
Entende-se a Medicina Antroposófica como uma ampliação das artes médicas. Isto quer dizer que um médico antropósofo pode e deve fazer uso de todos os avanços da Medicina moderna que estiverem ao seu alcance. Isto porém é feito com critério e à luz da Antroposofia. A maior contribuição que a Antroposofia pode trazer para a prática médica é a lembrança constante de que um paciente é antes de tudo um Ser Humano e, como tal, não pode ser visto apenas em seu aspecto físico, mas deve ser compreendido em seus aspectos anímicos (psíquicos) e espirituais (individuais). Para tal, acabamos recorrendo a uma noção de medicina como uma arte individualizada e variável, como todas as artes, na qual um tratamento vai levar necessariamente a "assinatura" do médico que o orienta e a peculiaridade do paciente em questão. É por isso, muito comum que dois pacientes que sofram de uma mesma moléstia recebam tratamentos totalmente diferentes, dependendo do médico que os orienta e de suas características pessoais: personalidade, tendências específicas, história de vida, características raciais e assim por diante. É bom que se lembre que estes pressupostos não são propriamente antroposóficos, mas fazem parte do currículo de qualquer faculdade convencional de medicina. Infelizmente, tais preceitos são rapidamente esquecidos e guardados em algum recanto da memória dos profissionais de saúde, catalogados como "curiosidades do passado". A origem destes pensamentos é, como não poderia deixar de ser, grega. Na Grécia Antiga, seguindo os preceitos praticados no templo de Epidauro, o médico ouvia seu paciente e interessava-se por toda sua história de vida. A idéia era não apenas recolher dados que pudessem identificar o processo patológico e as características especiais do dado paciente, mas fazer com que o paciente se recordasse das causas que o fizeram entrar em desequilíbrio e adoecer. Era feito assim, conjuntamente pelo médico e pelo paciente, o diagnóstico, percebendo-se o desequilíbrio, suas causas e as transformações que se exigiam para a cura da doença. Somente no instante crítico,era administrada alguma medicação ou feito algum procedimento médico. Esta etapa não era a mais importante do processo. A mais importante era a terapia, cuidados após a crise, que consistia em dieta de prescrições alimentares e práticas esportivas, além de regulamentação do período de sono e descanso. Ainda parte da terapia, o anotar e interpretar os sonhos era forma de mostrar a evolução do processo de transformação que estava ocorrendo no paciente. Só era possível alta médica com o término do processo de transformação e o fim da doença causada pelo desequilíbrio inicial; mesmo que isto só pudesse ser feito com a morte do paciente. A morte era vista pelos médicos gregos, como um processo natural, tranqüilo e esperado, já que todos somos mortais. A morte traduzia-se como a maior transformação pela qual alguém poderia passar, comparável apenas ao nascimento. Quando se compara as idéias gregas às idéias atualmente assumidas pela classe médica de maneira geral, nota-se que muito se evoluiu em matéria de recursos técnico-farmacêuticos, porém muito se retrocedeu no conceito de "doença". O conceito de doença que a Medicina atual assume é o de "entidade mórbida". Este conceito é comparável aos conceitos pré-históricos, nos quais a doença era vista como uma entidade imaterial, um demônio que se apossava do corpo, de forma aleatória e sem sua participação. Mesmo os conceitos de terapêutica são igualmente pré-históricos: já que o mal é uma "entidade demoníaca", é preciso fazê-la sair do corpo "possuído", utilizando-se de algum ritual (exames, cirurgias, etc.) de alguma poção mágica (remédios) ou de algum poder de influência espiritual (fisioterapias, uso de radiação, etc.). Hoje em dia tratamos vírus e bactérias como "demônios". Muitas vezes nos referimos a entidades mórbidas como o câncer e a AIDS, quase como se elas fossem "personalidades obsessoras". Ouve-se comumente dizer-se: "peguei uma gripe", ou "fulano está com pneumonia". Um médico da Grécia Antiga, se apresentado às idéias contemporâneas sobre as doenças, riria e chamar-nos-ia a todos de bárbaros e místicos, ainda que a ele pudessem ser apresentados a melhor eficácia dos métodos atuais e os bons resultados obtidos pela nossa medicina. O médico grego hipotético acharia ridículo o não se considerar as condições situacionais e psíquicas de cada indivíduo que apresenta determinada doença. Em Antroposofia, seguindo-se o exemplo grego, diz-se que a gripe e a pneumonia não existem, mas o que realmente existe são pessoas que apresentam gripe ou pneumonia. O problema é porém mais crítico quando se questiona a idéia da morte. Hoje, a maioria dos médicos não aceita a morte como um fato comum, natural e inevitável, como faziam os gregos, mas alimentam a interna e secreta fantasia de que se a tecnologia evoluir adequadamente, o Ser Humano poderá um dia, vir a ser praticamente imortal. Prolongar-se uma vida agonizante às custas de métodos artificiais absurdos deveria ser visto como uma prática repugnante e extremamente questionável e não como um avanço da ciência médica. A morte faz parte da vida e o ideal médico não pode ser o de evitá-la ou postergá-la. O ideal médico há de estar mais próximo da idéia grega de medicina, que é o de propiciar boa qualidade de vida, facilitando os processos de transformação que dela fazem parte, inclusive a morte. É exatamente assim que pensam os médicos antropósofos.
É evidente que somos dotados de um corpo físico: material e palpável. É evidente também que é o corpo físico que primeiro se nos apresenta. No entanto, deveria ser igualmente evidente que existem outros "corpos" que nos compõem. Se não, vejamos: há diferenças óbvias entre um corpo humano morto e o corpo de uma pessoa que dorme. Parece-nos que a principal diferença é que este é vivo, enquanto aquele está morto. Isto quer dizer que naquilo que se chama comumente de "vida" observamos a presença de diversas formas de energia: calor, eletricidade (no cérebro, por exemplo), energia química (no metabolismo), energia cinética (circulação sanguínea, por exemplo), etc. Mas que qualidade de vida apresenta um corpo de alguém que dorme? Observamos de imediato que está ausente a consciência, ou melhor, a consciência está muito rebaixada durante o sono: o indivíduo pouco ou praticamente nada se relaciona com o meio e mantém-se tão-somente, por assim dizer, "vegetando". A porção do Ser Humano que mantém vivo o corpo é chamada em Antroposofia de "corpo vital" ou de "corpo etérico", já que não é material, mas energético. Este corpo etérico representa nossa porção vegetal e, tal qual como ocorre nos vegetais, apresenta vida por crescimento, por fluxo e pela respiração celular. O nosso corpo etérico se faz presente pela multiplicação celular e pelos fluxos que nos compõe: fluxo sangüíneo, fluxo de energia elétrica, fluxo bioquímica, etc. Pode também ser encarado como "organismo aquoso". Existiria ainda alguma porção a mais que comporia o Ser Humano? Espero eu que sim, porque não me é muito confortável ser comparado a uma minhoca. Na verdade, existe nos Seres Humanos uma noção praticamente única entre os seres da Terra: a consciência de si mesmo e o livre arbítrio sobre as decisões de sua vida, acima dos instintos. Parece-me que somente o Ser Humano é capaz de se perceber como uma entidade existente e à parte do meio em que está inserido, possuidor de uma auto-identidade com existência física e temporal. Resumidamente: parece-me que somente nós podemos dar significado à palavra "eu". Isto quer dizer que nós somos ainda possuidores de uma individualidade auto-consciente, Em outras palavras: se uma sardinha morre e em seu lugar nasce outra, pouca diferença se vê. Mas se um Ser Humano morre, algo se perde para sempre. O Ser Humano existe, sabe que existe, sabe que é diferente dos demais seres e reflete sobre sua existência única no Universo. Esta porção tipicamente humana é conhecida em Antroposofia como "Eu". O nosso Eu se faz presente na vontade livre, na individualidade e na capacidade de transformar o mundo à nossa volta de acordo com estas duas características, enfim, "humanizar" o planeta, capacitando-nos à criação, colocando-nos como imagem e semelhança do Criador. O Eu pode ainda ser encarado como "organismo calórico". E como ocorre a interação deste "corpos" humanos em um único organismo harmônico? A priori, temos uma tendência para a harmonia, aliás, como todo o Universo. À esta tendência os gregos chamaram de homeostase. Assim, o corpo físico é perfundido pelo corpo etérico e dele recebe vitalidade e fluxo. Da mesma forma, a base fisico-etérica é permeada pelo corpo astral que nela imprime consciência, emoção e movimento. Finalmente existe o Eu que, sob forma de calor, vontade e determinação, exerce uma força organizadora que nos toma pessoas individualizadas e únicas em todos os níveis: astral, etérico e físico. Observamos que nestes "encaixes" há tendências maiores em direção a um ou outro componente, dependendo da parte do corpo que observamos. Na região abdominal, conhecida em Antroposofia como "pólo metabólico", há menos consciência, mais vitalidade e somos úmidos, quentes e extrovertidos. Já nas região cefálica, chamada de "pólo neuro-sensorial", há muito mais presença de consciência e somos secos, frios e introvertidos. O equilíbrio se dá então na porção torácica onde aparece o ritmo que tempera consciência e inconsciência, expansão e contração, calor e frio, secura e umidade. Isto é conhecido em Antroposofia como "sistema rítmico", que é basicamente composto pelos pulmões e pelo coração. Neste sistema rítmico é que reside toda a nossa capacidade de equilibrar a relação existente entre nossos corpos. O equilíbrio de nossas existências também se faz no ritmo de despertar e adormecer, como se fossem grandes inspirações e expirações, equilibrando consciência e inconsciência, animal e vegetal, vida e morte. Ao longo da vida este ritmo se repete em processos que são conhecidos como encarnatório e excarnatório, que também simbolizam uma longa inspiração no sentido da materialização do corpo na infância, e uma longa expiração no sentido da lenta decadência corporal na velhice. O nascimento e a morte seriam as expressões máximas desses ritmos "respiratórios". Similarmente existem inúmeros ritmos percebidos pela Antroposofia, que dividem a vida em intervalos regulares: o ritmo menstrual, o ritmo das estações do ano, o ritmo de 7 anos conhecido como ritmo dos "setênios", o ritmo lunar de 18 anos e meio aproximadamente, o ritmo de saturno de 28 anos aproximadamente, e assim por diante. O estudo destes ritmos da vida pertence ao estudo antroposófico da Biografia Humana. Este
equilíbrio é sutil e delicado e pode ser totalmente alterado
por diversos fatores. Quando isto ocorre, a tendência que temos
à harmonia, se incumbe de "aplicar-nos um corretivo".
Na maior parte das vezes este "corretivo" é uma doença.
Entendamos então isto: a maioria das doenças são
um esforço de nosso ser na direção do equilíbrio
e não um mal. Sendo assim, devemos respeitar as doenças
como sinalizadores do caminho mais adequado para cada um de nós.
Estas doenças sinalizadoras são "doenças quentes",
como uma gripe, em que há febre, inflamação, etc.
Se respeitarmos a gripe, nossa tendência natural será a de
fazer repouso, devido ao mal-estar, e aumentar a nossa temperatura e fazer
febre, o que leva a um aumento do metabolismo que ajuda a combater os
agentes agressores. Assim logo ficaremos bem de novo, e, provavelmente
teremos bastante tempo para refletirmos sobre as razões que nos
levaram a adoecer. Porém se tomarmos um antitérmico ou um
analgésico, o que acontecerá? Não sentiremos nem
o mal-estar, nem a febre e continuaremos nossa vida normal, mascarando
a doença que pode então piorar. Perderemos assim a chance
de entender o verdadeiro significado daquele adoecer. O que se deve fazer
então? Nada? Não. Em Medicina Antroposófica existem
vários meios de se colaborar com o processo da doença no
sentido de trazer ao indivíduo uma noção mais clara
dos caminhos que o levaram a adoecer. Isto se faz com o contato médico-paciente,
com medicamentos antroposóficos e com procedimentos rítmicos
específicos (Massagem Rítmica, Euritmia curativa, Terapia
Artística, Quirofonética, aconselhamento biográfico,
etc).
Há no entanto também as chamadas "doenças frias". Estas são normalmente degenerativas e crônicas, com características bem mais malignas que as primeiras. Representam elas uma espécie de "desistência" do Eu em exercer sua força organizadora, representada pela falta de calor, causando desta forma a degeneração e a desorganização do corpo em vários níveis. Nestes casos, primeiramente há que se "atrair" de novo este Eu para o corpo, para depois tentar restabelecer o equilíbrio. Essas doenças são efeito de diversas tentativas frustradas de correção do modus vivendi de um indivíduo. Digamos: alguém tem uma gripe e logo toma uma anti-térmico e não permite a expressão da doença. Tem outra, e age da mesma forma. Tem uma pneumonia e suprime seus sintomas drasticamente com uso indiscriminado de antibióticos e anti-inflamatórios. Tem, digamos, uma amigdalite e mais uma vez age contra sua tendência ao equilíbrio. Apresenta sintomas psíquicos, como nervosismo e insônia, e usa remédios "calmantes" com freqüência e com exagero. Entra em depressão e a combate com antidepressivos. Com o tempo, uma pessoa assim vai perdendo a capacidade que lhe seria inata de se auto-equilibrar e de refletir sobre sua própria existência e vai aumentando sua possibilidade de desenvolver uma doença fria, digamos: um lupus eritematoso sitêmico, uma artrite reumatóide ou um câncer. Se este processo não for corrigido de alguma forma, a morte apresenta-se como a única e inevitável maneira de promover a transformação necessária.
Ainda
podemos observar a lemniscata nas curvas do Caduceus (o cetro da
dupla serpente), símbolo da Medicina e manisfestação
de Hermes; nos meridianos do fluir da Em
Antroposofia, a lemniscata mantém seu significado milenar, representando
o equilíbrio dinâmico, prefeito e ritmico entre os polos
opostos constitucionais do corpo humano: o polo metabólico e o
polo neuro-sensorial. Como vimos, o polo metabólico (abdome) é
quente, úmido, expansivo e inconsciente. O polo neuro-sensorial
(cabeça, sistema nervoso central e órgãos do sentido)
é frio, seco, contraído e consciente. Do equilíbrio
deste dipolo, surge a vida humana em sua manifestação mais
primordial: o ritmo. A lemniscata representa então o sistema rítmico
(coração, pulmões e musculatura do tórax)
que proporciona os sinais vitais mais básicos, equilíbrio
físico e psíquico e harmoniza as essências opostas
que nos compõem. Fazem parte ainda deste equilíbrio dinâmico
rítmico, além do ritmo cardíaco e do ritmo respiratório,
ciclos como o dormir e acordar (ritmo circadiano), a tendência à
vitalidade (anabolismo) na infância e a tendência à
esclerose (catabolismo) na velhice (ciclo biográfico) e, em última
análise, o ciclo da vida e da morte (ciclo encarnatório).
Assim, toda vez que inspiramos, que nosso coração entra
em diástole, que acordamos pela manhã ou que usamos nossa
função orgânica anabólica, confirmamos nosso
nascimento. Analogamente, toda vez que expiramos, que nosso coração
entra em sístole, que vamos dormir à noite ou que usamos
nossa função catabólica, antecipamos nossa morte.
A Antroposofia pretende então livrar a medicina do raciocínio simplista da pura supressão dos sintomas e demonstrar a necessidade de uma visão mais ampla do Ser Humano, como entidade dotada de várias características além da pura materialidade. Esta "espiritualidade" deve então ser respeitada e levada em conta a cada passo do tratamento, desde o bom contato entre o médico e seu paciente, incluindo sua orientação para a tomada de consciência do verdadeiro significado do seu processo patológico, até a medicação adequadamente preparada e ministrada, juntamente com as orientações de hábitos de vida. Para tal, o médico deve contar com a valorosa ajuda de profissionais igualmente conscientes, como: farmacêuticos, enfermeiros, massagistas, terapeutas, euritmistas e tantos outros envolvidos. Um paciente que opta por um tratamento antroposófico sente esta diferença desde o consultório de seu médico até o balcão da farmácia onde adquire seus medicamentos. Somente desta forma, a palavra grega "therapeia", tratar com carinho e cuidado, assume seu verdadeiro significado. A prática antroposófica na área de saúde de modo algum exclui os avanços técnicos da medicina atual. Exames são pedidos com regularidade quando se fazem necessários, cirurgias são indicadas dentro do que existe de mais moderno na medicina, medicações químicas e alopáticas podem ser prescritas quando se imagina que serão realmente úteis. A grande diferença é o critério filosófico que adota para que se lance mão destes recursos, evitando-se a todo custo seu uso indiscriminado e paliativo. Fala-se sempre da Medicina Antroposófica como a Medicina ampliada pela Antroposofia. Não se afastam nenhum dos conhecimentos da ciência "ortodoxa", apenas se os complementa com a visão holística proposta pela "Arte Médica". Outra imensa diferença é que em Antroposofia jamais se perde de vista a dimensão humana de qualquer procedimento ou contato, evitando-se a todo custo a frieza que atualmente caracteriza a Medicina. É lógico que toda esta preocupação requer muito mais trabalho e dedicação por parte de todos estes profissionais, do que um simples prescrever de medicamento alopático, frio e massificante. No entanto, proporciona para o profissional de saúde e para seus pacientes, uma satisfação muito maior e resultados extremamente mais "humanizantes" do que os que poderiam proporcionar somente a ciência materialista vigente. Preservar esta visão humanista é uma bandeira que deve cada vez mais ser erguida por todos, principalmente por profissionais da área da saúde, procurando-se evitar com isto que no futuro tenhamos à nossa disposição inúmeros recursos técnicos que não correspondam a uma ética igualmente evoluída. E que estejam longe de nós os dias do "Admirável Mundo Novo" que Huxley descreveu. "Temos
que erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer
ao homem. Veja também: Antroposofia: Teosofia: Medicina
Antroposófica: Farmácia
Antroposófica: Rudolf
Steiner:
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